Minha breve e inesquecível carreira de vendedora de sebo
(Bienal do Livro Bahia - 2026)
Gosto de livros desde a adolescência e, como todo leitor que se preze, já cometi pequenos “pecados literários”: comprar mais livros do que consigo ler, prometer releituras que nunca acontecem e tratar a estante como quem cultiva um jardim (mesmo quando ele já virou floresta). Por isso, trabalhar uma semana em um sebo foi uma dessas experiências que aquecem o coração — e fazem a gente rir de si mesmo. De repente, eu não era só leitora: virei cúmplice de histórias alheias, guardiã de desejos impressos em papel.
E também arqueóloga de mim mesma. Ao arrumar as estantes, encontrei livros que li na adolescência, como O Moço Loiro, de Joaquim Manuel de Macedo. Foi como esbarrar numa versão antiga de mim — mais romântica, talvez mais paciente — escondida entre páginas amareladas.
Conheci uma colecionadora de Crime e Castigo. Sim, alguém que reúne edições diferentes como quem coleciona versões de um mesmo sonho. Vi a alegria quase infantil de um estudante ao encontrar um exemplar de Casa-Grande & Senzala, de uma edição desejada há muito tempo. Há felicidades que cabem dentro de uma mochila.
Nem tudo porém é romance russo e entusiasmo universitário. Um dos momentos mais inusitados foi quando uma cliente levou cerca de vinte livros — lindos, capa dura, impecáveis — com um único objetivo: decorar a estante do escritório. Confesso que ali meu coração de leitora sofreu um leve desmaio dramático. Livros que não seriam lidos? Quem diria.
E então vieram os jovens , muitos, curiosamente muitos, comprando clássicos com uma coragem admirável: Dom Quixote, Moby Dick, A Montanha Mágica. Fiquei pensando se leriam, se abandonariam na página cinquenta ou se, heroicamente, chegariam até o fim. Na idade deles, eu me contentava com Conan Doyle, Agatha Christie e outros mistérios bem resolvidos.
E, claro, os clássicos obrigatórios também davam as caras, em procissão escolar. Vários estudantes chegaram em busca de O Cortiço, leitura exigida pelo colégio. Difícil foi convencer um deles de que o livro, apesar da capa diferente era exatamente o mesmo da imagem no celular. E havia os que vinham atrás de revoluções. Jovens do ensino médio procuravam O Capital e o Manifesto Comunista, com uma determinação que eu suspeito não ter nascido sozinha — havia ali, talvez, a mão discreta dos professores de História.
Houve também o meu momento de ignorância gloriosa: quando me perguntaram se havia troco para uma nota de duzentos reais que eu não conhecia, achei que estavam brincando comigo. Mas o que mais me surpreendeu foi o contrário: alguns clientes perguntavam, com toda naturalidade, se aceitávamos dinheiro — como se ele já fosse uma relíquia em vias de extinção. Por um instante, tive a sensação de estar trabalhando não em um sebo, mas em um pequeno posto de resistência do mundo físico.
O mais bonito, porém, era observar os extremos: a alegria quase luminosa de quem encontra o livro desejado e a decepção silenciosa de quem chega tarde demais — “tínhamos um exemplar, mas já foi vendido”. Pequenas tragédias cotidianas, dignas de um capítulo à parte.
O momento mais emocionante foi quando um rapaz encontrou, entre os livros do sebo, um exemplar escrito e autografado pelo próprio pai, já falecido. A surpresa o atravessou de tal forma que, por alguns instantes, todos nós, vendedores, ficamos em silêncio, como se estivéssemos diante de algo que não nos pertencia. Ele nos transmitiu aquela emoção sem dizer muito: havia ali mais do que um livro, havia uma presença.
Entre uma venda e outra, ouvi confissões: um rapaz prevendo a bronca da esposa, uma senhora antecipando a reprovação do filho. Livros também causam conflitos domésticos — e talvez por isso sejam tão necessários.
E nos divertíamos com as buscas improváveis: meditação germânica, filosofia egípcia, rimas de Camões, livros em japonês, livros sobre cavalos e cachorros… O sebo era quase uma torre de Babel encadernada.




Nenhum comentário:
Postar um comentário