terça-feira, novembro 03, 2015

A arte de presentear

Com a proximidade do Natal (já?.. de novo?.. que rapidez!..) estive refletindo sobre presentes. Tenho observado que muitos Barretos detestam ganhar e dar presentes em ocasiões especiais, o que eles consideram obrigação. Reconheço a dificuldade de escolher um presente para alguém num aniversário por exemplo, mas o que vale é a celebração então se conseguimos nos despreocupar do objeto escolhido, do preço, etc., o que vale mesmo é o momento, é o encontro, é a comemoração. O presente em si é secundário, o que vale é o gesto.

Os Ramalhos (família de Rose Any), ao contrário de nós, adoram presentear. Quando Igor morava aqui, na época do Natal, ouvíamos as queixas dele, achava um absurdo: todos dão presentes a todos. Ele costumava dizer, “já avisei que não quero presente nenhum, para não me darem nada..”. Chegou a um ponto que eu disse; “Igor, você já está sendo mal-educado!”... Anos depois vejo a cena se repetir com Leo, com as mesmas queixas no Natal passado, pois a família de Alessandra também tem este costume.
Em setembro, no aniversário de Flori, quis fazer uma pequena comemoração em casa e notei que ele estava inquieto, desconfortável. Descobri que era porque ele não queria presentes. Precisei convencê-lo que não era festa e que as pessoas não trariam presentes.
Depois comentando isto com Anilza, ela me disse que Saul também era assim. Parece que é genético...
Há os que gostam e os que não gostam de presentear, há os que sabem fazê-lo e estes são poucos e os admiro. Acho que é uma habilidade especial, a pessoa sabe escolher a coisa certa para a pessoa certa. Há aqueles que encontram coisinhas simples, mas que deixam as pessoas felizes. Tia Amelinha, quando viajava, tinha este mérito, trazia lembrancinhas que não eram caras, porém úteis e geralmente novidades. Até hoje carrego uma lente de aumento em forma de cartão bancário que ela me deu. Também nos apresentou aos descascadores de verduras, tão comuns hoje em dia. Fernando, que também detesta presentes, quando viaja segue o exemplo, se não encontra novidades, compra várias coisas, tipo canetinhas, chaveiros, bonés, não dirigidos para pessoas específicas e quando volta distribui para um e outro. Eu que reclamo no momento da compra, aqui participo da distribuição, não sem ouvir reclamação, claro!..
Houve um Natal nos velhos tempos, em que fizemos um Amigo Secreto, em que os presentes deveriam ser coisas que as pessoas já possuíssem. Ninguém deveria comprar algo novo. Tinha lido em algum lugar que o objetivo disto era ensinar as crianças a praticar a generosidade, portanto não era para dar algo que não se quer mais, ao contrário, deveria ser algo que você gosta e portanto o outro provavelmente gostaria também. Foi muito interessante para observar o comportamento das pessoas.

Eu tenho alguns “traumas” relacionados a presentes, tanto em dar quanto ganhar, mas fica pra outra postagem...

9 comentários:

Fernando disse...

A todos

Presente é um negócio criado para beneficiar o comércio de coisa fútil,presentear tem que ser em seu tempo e com criatividade.

art disse...

Também tenho isso em relação a presentes, mas em mim sei que é alguma coisa relacionada à infância, quando ganhávamos (ou não) presentes dos pais, que hoje não estão mais entre nós, e os presentes podem estar de alguma forma relacionados à essa ausência. Aliás sinto a mesma angústia no Natal.

Celia disse...

Infelizmente não herdei a capacidade de presentear de minha mãe. Não sei como a mala dela cabia tanta coisa. Mas vale lembrar da capacidade de presentear da matriarca. Certa vez, Ademário viajou para São Paulo com Mariana para um exame com o oftalmologista, e ficaram comigo Amélia, Quinha e Nicácia, que tinha chegado fresca do Onha. Na bagagem, trazia folhas de flor de cera, da casa de Nicinha. Decidimos visitar Tio Saló. Nicácia me pediu para levar algumas mangas, que tínhamos bastante na Chácara. Na casa de Tio Saló, ela presenteou mangas e recebeu puba; na casa de Célia, filha de tio Saló, ela presentou flor de cera e recebeu milho; passamos na casa de Vilma, que recebeu milho e ganhamos mais mangas. Foi um troca-troca incrível, mas que comprovou que o amor, a atenção e a amizade é que é o presente, o objeto apenas concretiza. Para finalizar, a flor de cera que ela me presentou adorou o pé de dendê da Chácara de Dias D'Ávila e florescia todo ano de maio a outubro, com bouquets de flores cheirosíssimos

CB disse...

Acho que o que está por trás do presente é onde mora a questão e depende da situação. Dar presentes após ter vindo de uma longa viagem é mais que presentear, é apresentar o outro lado da viagem em forma e textura, é apresentar a capacidade de entender o que se viu e como essa coisa se descreveu no viajante, vale até não trazer nada - ô lugarzinho (ou pessoa) desinteressante. Também sabemos que o retorno é um presente, já o presente-embrulhado pode ser seu reforço e também a prova de que foi - mesmo, que digam os antigos navegantes quando encontravam alguém que volta - não trouxe nada? Então não foi.

Diria que em alguns momentos do passado os presentes de viagem pareciam uma peça para todos, mas ficaria a cargo de um, para cuidar e manter. Mas atualmente eu diria que a regra do presente de viagem evoca a outras duas regras que se escondem a depender da situação, vejam de trás para frente. A terceira regra e a mais bonita (que é dita como primeira e única) é demonstrar que mesmo na distância, as lembranças e associações do outro permanecem, "a saudade bateu e lembrei de você quando vi este souvenir" lindo não é? mas leia-se que por trás deste galanteio esconde-se o puxa-saco (segunda regra- nunca assumida) ou segue a regra mor: lembre-se de mim senão te mato..

Acredito que existem os casos onde presentear virou um hábito. E aí meu amigo, quando a coisa vira hábito já sabemos, o povo corre para o Shops com o nome de todo mundo, de vez em quando liga para perguntar o nome do filho do irmão, porque esqueceu e nunca soube, e vai comprando,vai comprando e de vez em quando lembra do nome de um – ah já sei! mas eu vou comprar presente para aquele fdp? A mulher responde - vai sim porque é natal, e aí vai no frenesi, tomando bronca da mulher com os filhos segurando na barra da calça pedindo coisa para comprar. O inferno nestes casos costuma ser almejado, mas pelo amor de Deus, os Ramalho e os Vieira não são assim! Estou aproveitando o tema para desenvolver a temática. Eu tô falando da minha cabeça, de coisas que vivi e de uma tendência natural da família brasileira entrar na onda do consumo. Eu só tenho a dizer que achava isso ótimo quando eu era duro.

Voltando a arte de presentear, a parte que mais me incomoda são os casos de presentes onde já existe um convívio ou uma intimidade para quase além do próprio outro, nestes casos presentear com data marcada soa artificial e não faço questão. Não vejo nenhuma necessidade de receber um presente de Natal quando poderia tê-lo recebido hoje ou depois do Natal, pois em se tratando de data comemorativa o maior presente é o encontro, o presente, creio eu, quase atrapalha.

Guardei por quase trinta anos um bloco de papel da Concorde, presente de Tia Amelinha que infelizmente não o tenho mais, procuro entender que não é o presente que faz a diferença, mas a leitura certa do ambiente que vamos e das pessoas, é assim que digo como os vi, como os vivi e como essa visão toma forma e textura e vira presente.

Bel B disse...

Adorei este troca troca de presentes Célia. Não podemos perder estas histórias...

Concordo com Cristiano, "...os casos de presentes onde já existe um convívio ou intimidade..." para mim também soa artificial, talvez pelo costume, quando me casei Fernando propôs logo um acordo de não presentear em data marcada, só comemorar. Mas presente era no dia a dia, ele quando comprava sorvete só escolhia chocolate que era o que eu mais gostava, eu comprava de ameixa que era o que ele mais gostava.. naturalmente, sem acordo prévio, não é romântico?

Anônimo disse...

Presentes? Em todo o mundo, gastam-se bilhões de dólares na compra de 'PRESENTES" que raramente agradam a quem recebe. Mas, a questão não é essa. O que me deixa chateado é não ter sido convidado para o aniversário de Flori. Que tempo o que vivemos!!!

Anônimo disse...

Lulão, esse anonimo é vc?

O provocador.

Cristiano Barreto disse...

O provocador foi provocado...

Mariana disse...

Eu DETESTO presentes com data marcada. Nada contra o capitalismo, afinal, é ele quem faz o mundo girar! Meu detestar vem do fato da inutilidade dos mesmos, quantos "elefantes brancos" ganhamos pela vida a fora e temos que agradecer e sorrir? A melhor fase dos ditos "presentes" é a infância, me lembro muito bem quando minha mãe voltava de viajem e entregava aqueles kits que entregavam no avião. Lembro que eu e Nara adorávamos cheque e cartão de credito (claro, né!) inutilizados e ficávamos brincando de banco... Época boa quando não importava o valor do presente, quando só o simples fato de abrir uma caixa ou embalagem já gerava um sorriso.
Atualmente eu peço o presente quando alguém vai para algum lugar ou simplesmente abro as caixas das compras on line, mesmo sabendo o que tem dentro ADORO abrir caixas ;)