quarta-feira, outubro 07, 2015

A liberdade de andar distraída

Na semana passada estive com Claudinha na Academia e  comentamos sobre a viagem que ela fez  com Mauricio recentemente. Eles foram para um Congresso em Estocolmo e antes disso, passaram uns dias em Barcelona curtindo férias.

Ela me contou que numa noite em Barcelona, viram uma cena em que ela não conseguia parar de chorar. Pessoas de todas as idades, de crianças a idosos, dançando na rua despreocupadamente.  Ela chorava pensando nos filhos e na nossa  falta de liberdade de andar pela cidade distraídos e sem medo. Nossa triste realidade e pior ainda, não vemos luz no fim do túnel.

Hoje achei este texto sobre o mesmo assunto e reproduzo aqui:

A liberdade de andar distraída
por TAIGA CORRÊA GOMES

Logo depois que soubemos que iríamos morar fora do Brasil, um amigo disse que eu me sentiria como se estivesse em férias permanentes. Depois de pouco mais de 2 anos, não é exatamente essa a minha sensação, mas é parecida.

Aqui em Tóquio me livrei de todas as causas desnecessárias de stress. Mesmo sabendo que um terremoto pode acontecer a qualquer momento, vivo sem medo. Ando distraída pela rua sem nenhuma preocupação. Deixo meus filhos brincarem livres em um parque público enquanto leio um livro. Não preciso ter carro aqui, me livrei da tensão no trânsito. Tenho a escolha de me locomover de metrô, ônibus ou bicicleta, e sempre sei exatamente a que horas vou chegar ao meu destino. Nunca mais tive que correr ou me atrasar para um compromisso. Se preciso pegar um táxi, tenho a certeza de que o motorista é de confiança e não vai cobrar a mais. Aliás, se por um acaso ele erra o caminho, devolve a diferença.

Não é uma sensação de estar em férias, é a experiência de viver em um país que me proporciona direitos básicos. Sinceramente: isso é pedir muito? Poder ir e vir com liberdade, sem medo; poder compartilhar o espaço público em harmonia com os outros cidadãos; ser tratada com respeito e cordialidade; morar em uma cidade limpa; ter à disposição diversão gratuita no fim de semana nas inúmeras praças e parques impecavelmente administrados.


Conversando com uma amiga alemã hoje eu tentava explicar um pouco o que escrevi acima. Ela não conseguiu entender porque nunca viveu tendo sua energia sugada pelos pequenos e grandes problemas que corroem o dia-a-dia do brasileiro. Enquanto eu estava imersa no caos do meu tão amado e maltratado Rio de Janeiro, não me dava conta do quanto eu era consumida um dia depois do outro. Ter que pagar uma conta no banco enfrentando uma fila imensa e a falta de educação de uma atendente; pisar em uma poça de esgoto em um dia de chuva ou voltar de um dia na praia e não encontrar a minha bicicleta. É claro que tudo isso e muito mais já aconteceu comigo, faz parte da rotina do carioca, é normal. Vivi toda a minha vida assim e, anestesiada, quase não me indignava mais. Pois agora confesso que estou cada vez mais revoltada com o que eu aceitava resignadamente. Não, não é normal. Normal é ter a liberdade de andar distraída.

9 comentários:

Anete disse...

Engraçado, sinto muita segurança aqui no Rio. Acho que depende do bairro que a pessoa mora. E lógico que tem que ter cuidado para não entrar em favelas não pacificadas. Lógico que tem vantagens de morar em um lugar mais seguro, mas tudo tem seus prós e contras. Eu não tenho nenhuma vontade de morar fora do Brasil.

Bel B disse...

A questão não é somente eu me sentir segura no bairro em que moro. Nós vivemos num país onde 20 cidades estão entre as 50 mais violentas do mundo. Há mais mortes por violência que nos países em guerra, onde se mata pelos motivos mais banais, como uma bicicleta ou um celular. E tantos inocentes que já morreram por bala perdida. Todos os dias, vemos inúmeras notícias assim e pior vamos nos resignando, achando que é normal, não é.

Eu queria que as casas não tivessem muros na frente, que os prédios não tivessem grades e nem precisassem de Segurança, entre outras coisas.

Para mim não faz sentido sair do Brasil, mas aconselho a qualquer jovem hoje que tenha oportunidade...

Bete disse...

Também não penso em sair do Brasil. Mas é lamentável nossa realidade de insegurança e violência. Ainda mais,quando não se tem esperança de mudanças. Meu neto tem 10 anos, e ainda não sai sózinho para lugar algum, nem mesmo na frente da casa...

Anete disse...

O perigo existe mesmo, não me sinto segura de sair de noite andando em nenhum lugar de Salvador ou Conquista. Aqui no Rio dá para sair andando sozinha de madrugada em alguns lugares da zona sul com segurança. A minha empregada mora no morro do Alemão, realmente está perigoso, mas ela me disse que nunca foi assaltada. Realmente quando vemos na tv as reportagens nos influenciamos mais, a realidade é diferente do que passa. Com certeza tem que mudar e investir mais na segurança das cidades. Aqui no Rio depois que pisam na bola e acontece algum arrastão, o policiamento volta para a rua e fica tudo ok de novo. Do ontem no centro, tinha mais policial na rua do que pedestre. Infelizmente temos que recorrer a repressão para que não aja violência. Resumindo, a solução é combater a causa, com mais empregos. Porquê todos tem que conseguir as coisas por esforço próprio, ninguém tem o direito de se apropriar das coisas das outras pessoas sem autorização, mesmo que seja um bombom de chocolate.

art disse...

Em Viena há alguns anos eu estava com Tarso, e três búlgaros tentaram nos assaltar, quando viram que éramos brasileiros saíram correndo.

CB disse...

“Falar de violência social a partir da percepção das nossas próprias experiências é como falar de alguém que mal conhecemos de modo a extrair uma opinião geral sobre a pessoa, seremos mais que superficiais, seremos a própria superficialidade. Converse com um policial e ele lhe dará "parte" mais real sobre a violência na cidade, converse com um médico de hospital publico e saberá, um pouco mais, a quantas anda a saúde publica ou vá para a Viena e viva a experiência do Brother, para perceber que a violência do Brasil fez fama, porque ?. Não precisamos ser experts para perceber que a violência que vivemos tem relação direta com a "paz" que desenhamos.

Um breve sobrevoo sobre a cidade do Rio de Janeiro ou Salvador e verá que 90% da área urbana é favela ou bairro sub-urbanizado, enxergar isso é fácil, difícil é demonstrar que separar isso custa caro. Custa porque não tem parede, como tinham os castelos de antigamente, o negocio agora é na porrada, longe das câmeras..

Separar essas áreas é atuar com violência no dia a dia, não só separar, manter as áreas da forma como são, também. Deixar o pobre longe das ruas, sofrendo nos transportes e morrendo de inveja das nossas roupas, carros e nossa prepotência tem um preço e é terrível aceitar isso, meter a mão na massa, jamais!. Graças a Deus, pois todo bairro rico é religioso, nós temos escolhido pessoas para fazer esse trabalho, meio sujo..

Nossos eleitos, eles e não eu, que viabilizam, mantém e valorizam o estilo de vida que nós escolhemos. Eles que foram eleitos para fazer o trabalho sujo de deixar minha rua sem pivete, dizem até que esses pestes são humanos, eu nem sei. Gostamos que a coisa seja feita na surdina, na calada da noite levando os mendigos para longe do nosso conforto estético, não me espanta nosso apreço, na surdina, pelos maiores ladrões.

O cenário eternizado de violência e de guerra que existe nas cidades brasileiras é o pleno estabelecimento do nosso estilo de vida, mas o que me assombra muito mais em pleno 2015 é perceber que ainda vigora o “não tem pão? coma brioches..” como se a navalha fosse coisa de desafortunado.

O arrastão, o assalto e o estupro são respingos da pressão social diária cuja causa somos nós mesmos!. O criminoso é a consequência, tal como nosso político, faz contraponto de coitado, mas não menos culpado, afinal, alguém precisa pagar a conta do meu passeio na zona sul..”

Choremos..

Anete disse...

Não acho que somos culpados de nada. Não carrego esta culpa social. Todos têm que trabalhar se desejar ter alguma coisa.

CB disse...

Essa falta de culpa não é apenas sua, é nossa, e graças a ela é que vemos com naturalidade o uso da repressão para combater a violência. Nós terceirizamos a dor, por isso ela não nos pertence.

Arthur não tem fama de pistoleiro em Viena, então como que um brasileiro do país do futebol e do carnaval conseguiu espantar os marginais? nossa violência está tão entranhada que não precisamos ser violentos, só precisamos sorrir, isso basta.

Sobre emprego, sim temos que trabalhar, mas quem garante emprego para sustentar todo mundo? Não há essa sustentação e a simples existência da taxa de desemprego é prenuncio dessa escassez, e na escassez, parafraseando Hume, não há humanidade que resista. Reprimimos o anseio com a força e reprimimos sem eliminar, pois este anseio move o mercado, este anseio é, tal como a fome, renovável.

Não estou defendendo nem apoiando nosso modelo, estou demonstrando que devemos ter consciência dos custos que nos cercam, essa tomada de consciência nos faz refletir sobre nosso caminho, seja para qual objetivo for, a partir daí tomaremos nossas decisões pela medida do ser humano que somos e que pretendemos ser.

Alvaro Risso disse...

CB, o seu comentário está bonito mas faltou uma coisa. A inveja do pobre com as roupas do rico, não o leva ao crime. Uma frase muito antiga que ouvi: O pobre passa fome mas não rouba, ele pede. O caso tupiniquim da violência, está muito mais ligado às drogas do que à questão social. Se assim não o fosse, não haveriam os criminosos classe A e B. Políticos e criminosos do colarinho branco, são um caso à parte e não entram nas estatísticas da violência. O ECA é uma excrecência em termos de justiça quando se trata de menor infrator. Ele parte do princípio que todas as pessoas são boas e é a sociedade que as corrompe (Rousseau), só que a natureza não corrobora essa tese. Somos todos diferentes, uns bons e outros maus. Somos humanos! Ser criminoso dá menos trabalho que ser trabalhador. O ganho é direto e maior. Teria de haver o risco da punição, que no nosso caso não há. Ser bandido num dos países citados no texto e nos comentários, é um risco muito grande e uma pena maior ainda. Dizer que não há pobres nesses países não é verdade. Apenas, tanto para os pobres quanto os para os ricos, as punições são iguais caso cometam crimes. Não podemos garantir que todas as pessoas são boas e ordeiras por princípio, mas assim agem se houver o risco da punição. Imagine se um bandido, dentro da quadrilha, desrespeita uma regra e fica sem punição? Por que então, na sociedade fora da quadrilha, não punimos os infratores? É melhor viver num país onde há punição.