quarta-feira, fevereiro 18, 2015

A vida e a Plenitude - Homenagem a Caguto

(Nunca as cinzas tiveram seu aspecto real tão presente como esta, apagaram umas das nossas brasas. Segue o texto elaborado no dia da morte de Cagutão e lido no seu velório)

A vida e a plenitude

Ah vida! sua danada, mal crescemos e já temos que lidar com aquilo que não conhecemos, mal conhecemos e temos que aprender a esquecer e mal aprendemos a esquecer e temos que morrer. O tempo é implacável e ele é que nos traz o desafio, como sobreviver e ao mesmo tempo gozar de toda plenitude? Sinceramente não há como, não da forma como desenhamos o mundo atual, hoje temos que escolher, viver das duas formas seria o mesmo que tentar encontrar um produto barato, rápido e de boa qualidade, não existe nada com estas três virtudes. A vida é assim, quando é ruim demora, quando é boa passa logo e quando pagamos barato não vivemos plenamente, mas aí quando resolvemos pagar caro, correr atrás de maturidade, ganhar dinheiro e entregar-se aos momentos verdadeiros, ficamos velhos. Então eu pergunto, o que fazer?

A coisa toda começa em você, porque se a morte é certa então é preciso atenção para usufruir daquilo que você chama de plenitude, não essa plenitude barata dos tempos atuais, mas uma plenitude que faz o sofrimento valer a pena, afinal como diria Vinicius de Morais, “O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades”.

O paradoxo é que nunca eternizamos a plenitude, ela é vivida na passagem, algumas vezes por horas outras vezes por anos, mas não na eternidade. Essa é nossa dificuldade, aceitar a passagem, aceitar o movimento das coisas e da própria vida, pois nós a construímos, em grande parte, para nossas vontades.

E o que seria pleno? pleno é o gozo, no sexo, na bebida, no sorriso do filho, na convivência e até na solidão, mas nenhuma plenitude se compara a arte. A arte nos (e)leva para o além humano, a arte nos aproxima dos Deuses e na arte encontramos aquilo que realmente queremos, a eternidade.

Perdi um pai da música, um mais que amigo, uma referência musical que me levou para o além humano diversas vezes, no meu caso muitas dessas vezes em um único acorde. Se ele era a plenitude em pessoa? Não sei e não importa, o que importa é que se ele fosse um Deus tocaria para nós eternamente, do mesmo jeito que sempre tocou.

Caguto foi nosso momento de felicidade, foi um privilégio viver a luxuosidade da música que ele representou e que agora fica com menos arte, porque de movimento ele se fez e com um movimento ele se despede, deixando em nossas memórias a magia dos momentos musicais mais plenos que pudemos conhecer.

Para os supérfluos foi-se um homem, para nós fica sua música e o universo de possibilidades de como viver plenamente.

Eternas saudades,

Cristiano Barreto.

5 comentários:

Bel B disse...

Muito bom. Bela homenagem.

Naninha disse...

Uma grande homenagem. Kinho....poucos poderiam homenagear cagutao dessa forma

Mauricio disse...

Rebuscado e sensível seu texto Quinho... ah estamos falando de Caguto.

Mariana disse...

Cada palavra do poema nos remete a nós mesmos.. nossas vidas... Lindo texto.

Leonardo Barreto disse...

Caguto será isso tudo e mais um pouco !!! Sempre eterno caguto homem de grandes cordas . parabéns pela vela homenagem