terça-feira, março 08, 2011

Dia Internacional das Mulheres - Homenagem a Amelinha

Amelinha nasceu em Ibicuí em 14.11.1931. Passou sua infância em Três Morros onde freqüentou a escola primária. Quando criança costumava passar temporadas no Fazenda Ronco onde sofreu grande influência de sua avó Emília, principalmente no gosto pela leitura.


Todos que a conheceram jovem não se cansam de falar da sua beleza. Casou-se em 1949, em Jequié, com seu primo Arlindo Martins de Souza e mudou-se para Vitória da Conquista.
Amelinha sempre foi uma mulher além do seu tempo, inteligente, determinada, batalhadora, sempre perseguindo os seus ideais. Sendo seu marido médico conceituado em Conquista, ela poderia ter sido apenas uma grande dona de casa, ou uma socialite de Conquista nos anos 50 e 60, mas preferiu ir em busca dos seu próprio caminho. Primeiro, lutando por independência financeira, fazia roupas plissadas, high fashion da época, na base do ferro de engomar. Mais tarde ela partiu para uma solução tecnológica mais avançada, uma máquina de plissar, os tecidos eram colocados em formas de papelão com fibra e depois inseridos numa máquina a vapor.

Fazia também bolos confeitados para aniversário, mas seu maior desejo era estudar, sendo assim ingressou no ginásio em 1960, continuando até concluir o magistério em 1967, coisa incomum para uma senhora com 3 filhos, numa época de muito preconceito. Não parou por ai, em 1970 ingressou na Faculdade de Filosofia do Nordeste Mineiro, em Teófilo Otoni, cursando Literatura em Ciências Sociais.

Todas estas atividades poderiam fazer com que ela ignorasse suas funções domésticas, ao contrário sua casa sempre teve um jeito especial, com características próprias de decoração, refletindo bem a dona da casa, com seus livros, seus quadros, seus objetos mais simples que ganhavam vida num ambiente sempre muito aconchegante. Além disto, ela era uma exímia cozinheira.

Do signo de escorpião, tinha personalidade forte, sempre foi muito exigente, disciplinada, sincera, sendo muitas vezes mal compreendida, especialmente pelos adolescentes. Mas a verdade é que as pessoas que sofreram a sua influência, tornaram-se verdadeiros cidadãos do mundo.

Após 30 anos de casada, com os filhos criados e independentes, preferiu separar-se por incompatibilidade de objetivos. Ela ainda tinha muitas metas a serem alcançadas. Continuou seus estudos, mudou-se para Salvador, fazendo o curso de Especialização em Programação e Metodologia do Ensino Superior, e posteriormente Bacharelado em Sociologia na Universidade Federal da Bahia, tendo concluído em 1988.
Voltando para Conquista foi contratada para lecionar Estatística, Integração Social e Educação Moral e Cívica, no Centro Integrado de Educação Navarro de Brito. Em 1981 participou do grupo que fundou a Faculdade de Administração. Desde o início lecionou Estudo de Problemas Brasileiros para todos os cursos que posteriormente formaram a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. Lecionou também Sociologia Rural para os cursos de Administração, Agronomia e Geografia. Aposentou-se me 1995. Ainda na Universidade iniciou uma pesquisa sobre alimentação na região de Vitória da Conquista. A aposentadoria permitiu-lhe concluir esta pesquisa e realizar mais um sonho: publicar um livro. Aconteceu em 1996 a publicação de seu livro A Alimentação no Planalto de Conquista 1930 a 1950. Do sucesso do seu livro passou a fazer demonstração culinária na TV Sudoeste.

Amelinha foi uma pessoa muito dinâmica, que gostava de cultura de forma geral: cinema, tv, literatura, teatro e artes em geral. Formou um grande cículo de amizades, inclusive tendo sido sócia fundadora do Clube da Amizade, instituição filantrópica em Conquista, fundada na década de 50. De sua mãe Nicácia herdou o gosto por viajar e por comemorar seu próprio aniversário - sempre uma festa, em casa, ou na casa das amigas, na Faculdade. Houve ocasião que comemorou numa barraca na rua com direito a banda de música. Realizou muitas viagens, pelo Brasil, Europa e Estados Unidos.

Teve 3 filhos, 4 netos, plantou muitas árvores, escreveu um livro. Faleceu em 2002 no dia Internacional das Mulheres e continua viva na nossa memória. Em sua homenagem há uma ala da Universidade onde ensinou que tem o seu nome.

8 comentários:

Anete disse...

Grande vovó Amélia, tive oportunidade de conviver com esta pessoa maravilhosa. Vai ficar sempre a lembrancas dos almocos, do amor que transmitia a todos nós. Como sempre, única, insubstituível.

Vane disse...

Com sua maneira enérgica e de educadora, nos ensinou muitas coisas para a vida, que na época,como éramos
adolescentes não eram entendidas.
Mulher = sexo forte.

Ivana disse...

Fiquei emocionada e chorei! Falar em vovó mexe muito comigo. Ela foi exemplo para todos nós e acredito que as mulheres da família seguem os seus passos. Na vida o que vale a pena é deixar a nossa marca.

Naninha disse...

Virou uma referência de Mulher. Não falo apenas como sobrinha. Basta perguntar na Universidade a qual lecionou....é inacreditável ouvir e ver a admiração que as pessoas tem por D Amélia.

Quando aparecerem por aqui vão a UESB visitar o pavilhão em sua justa homenagem.

O mais interessante é que não precisou ser genial.....ela foi Amélia...simples....forte....determinada...correta....e com isso marcou época...uma geração...que certamente vai ecoar por muito tempo.

Que os surdos ouçam e que os cegos vejam o que esta mulher fez....

Vamos relembrar suas histórias....que como disse Vaneide, não eram entendidas....

Pena que convivi tão pouco...

Felipe Matos disse...

Certa feita estava num barzinho em Conquista e fui apresentada a um Chefe de cozinha muito famoso, que já assinou alguns restaurantes na França e hoje coordena cursos de culinária no SENAC. Bem, o que importa e que decorrer da conversa ele citou o livro muito interessante que falava sobre a culinária do planalto da Conquista de Amélia Barreto o qual ele tinha uma cópia. Fiquei muito orgulhoso de ter feito parte da vida dela. Acabei presenteando- lhe com um livro comprado no CLUBE DA AMIZADE.

Alvaro - Fortaleza-CE disse...

Bom, falar de Tia Amelinha, sou apenas um agregado, e de seus quitutes muitos já falaram. Agora quero lembrar do grande tema que ela era uma batalhadora incansável: A submissão da mulher. Esta sim era uma luta incansável dela para mudar a nossa sociedade machista. Ter essa visão e disposição para o embate, num país como o nosso e principalmente numa sociedade nordestina, distante (na época) dos tentáculos europeus de igualdade, existentes no sul maravilha, era mister ter fibra. E isso ela tinha de sobra. A culinária não a fazia submissa e sim imponente. O sofrimento final foi injusto ao seu mérito. Tenho grande saudade dos longos debates e agradeço a ela por ajudar-me a lapidar meus princípios que utilizei na educação dos meus filhos. Ela realmente faz muita falta.

Leo Kid disse...

Inicio minhas pequenas palavras dizendo que fui um pessoa de muita sorte. Fui morar com Tia Amelinha em 92 e fiquei com ela ate inicio de 97. Posso dizer que aprendir muito com ela. Ela me matriculou num curso de Datilografia ( tenho diploma e tudo), fiz a 8 serie, depois fiz um curso Tecnico na Uesb por 3 anos ( voltava na carano algumas vezes num uno onde a pilota era Tia Amelia( ela não gostava de dar ré e a 3º marcha quase chegava dar 80 no quadro. O carro Uno so quem dirigia era Serginho e logo que tirei carteira pude pilotar. Sem carteira so tinha direito de lavar o carro.
Lembro tambem das tardes que passava-mos assistindo televisão deitados e comendo tapioca , normalmente 2 kilos passado na manteiga bem torrada. Fui piloto de algumas viagens na época que esta escrevendo o livro, não esqueço da sopa de aimpim com carne do sol, polenta , essas era o trivial em casa.
Aos domingos tinha aquele almoço em casa onde tia Sandra , Tia Sara e mais alguns aderentes traziam pratos e no final a sobra parava na geladeira , o resto da semana era uma farra , Tia Amelinha tinha o Dom de TRANSFORMAÇÃO , transformar galinha em peixe , boi em porco , cabeça de peixe numa belissima sopa verde, para alguns isto se chama de aproveitamento de comida para Minha tia chamavamos de left over, alguns dizia " Amelia tá fazendo cada comida estranha!!!! " eu adorava , chegamos a tomar 4 litros de sopa numa só noite.
Lembro-me da ropa da casa que era lavada a 40 anos com uma lavadeira e era entregue sempre aos sabados as 7 da manhã. Um belo dia acordei mais tarde e a Tia me pegou pelo pé e disse " já levei a roupa , vc vai ter que lavar a sua" não contei até 3, fui lavei e para puxar o saco lavei uns vestidos dela do final de semana, fiquei com tanta moral que apartir dai quem levava a roupa aos sabados era eu.
Aprendir essas treitas com Serginho .

Resumindo:
São milhares de historia que dar para escrever um livro, o que importa que tudo isto ficou gravado na minha mente.
Tia amo a senhora onde quer que esteja , tenho 2 filhas lindas e uma delas gosta de comida igualzinha a senhora , chama-se Fernanda .

Beijos e abraços
Leo , San , Nanda e Duda

Fernando disse...

A casa de Amélia, minha irmã, tinha um conjunto de mesa infantil com as cadeiras coloridas verde, azul, rosa e branca. Verde de Lula, azul de Celia, rosa de Duda e a branca era a minha, isto na década de 50. No Natal havia uma enorme árvore e uma igrejinha de Madeira que tocava música natalina. Era tudo tão bonito que quando eu, menino, chegava lá ficava com vergonha de entrar. Na década de 60 fui morar em Conquista na casa de Noelia e passei grande parte de minha adolescência na casa de Amélia, no quintal onde havia várias árvores frutíferas e lá passei pela experiência da pólvora com Lula quando me queimei. Outro atrativo da casa era o enorme sinuca que ficava na garagem onde os médicos da cidade se reuniam para jogar, e havia grande integração entre crianças e adultos. Tinha também um som estereofônico que nas tardes de domingo a galera (Isabel, Célia, Bete, Vaneide, etc) se reunia para dançar ao som dos Beatles e Rolling Stones. Em um dos carnavais em Conquista, roubamos um Peru em sua casa, e foi uma confusão. Na festa do talco, Edinho jogou um kg de farinha de trigo na cabeça de Amélia, o que foi um grande ato de coragem, pois nesta época todos nos tínhamos medo dela, que era muito chata.
Com o passar do tempo, ela tornou-se estudante e aos poucos foi mudando sua vida e sua natureza. Quando vinha a Salvador e o tempo em que morou nesta cidade era outra pessoa. Na minha casa deixava sempre uma lembrança um tapete de crochet, um pano de geladeira, etc..
Quando voltou para Conquista montou sua nova casa, mesmo sem quintal e sem sinuca, continuava a casa mais freqüentada onde a família gostava de se aconchegar, graças a anfitriã. Algumas vezes não sobrou vaga para mim que tive que ir para o hotel.
Nesta época como tínhamos adolescentes em casa, Isabel gostava de ir se reciclar com Amélia, e no depoimento de Álvaro acima, vejo que este também fazia isto....
Dos quitutes desta nova casa não me esqueço do fígado assado com andu que as vezes era servido no café da manhã.
Hoje na minha casa, eu tento fazer um pouco do que aprendi com ela.