domingo, julho 05, 2015

O país da Mulher Mandioca


Me chama atenção as ações no entorno da lei de redução de maioridade penal. Apesar de 90% da população clamar pela redução da maioridade penal, alguns auto nomeados representantes da sociedade, como a OAB, alguns artistas, e claro, segmentos políticos mais atrasados insistem na manutenção da atual lei, apesar de que com 16 anos o indivíduo já possa votar, e em um estado como São Paulo cerca de 0,2% dos que cometem crimes hediondos, do que trata a nova lei, estarão nela enquadrado.

Mas o que está por trás disso?

Me pergunto por que a violação da lógica, do bom senso, e a distorção brutal dos fatos? Alguns chegam a dizer que a “redução não é a solução” como se a lei buscasse uma “solução”, e não ferramentas eficazes em manter preso quem mata e estupra, e é liberado seguidamente voltando a matar e a estuprar a população desarmada por decreto, como em todos os regimes totalitários.

Poggio Bracciolini, já aposentado, estava em Florença quando em 1450, manteve contato com vários soldados que lutaram com o grande conquistador mongol Tamelão na histórica vitória contra as forças turcas em 1402 chefiadas por Bayezid (pai de Mehed II que tomava Constantinopla naquele 1453). O esquecimento total que se tinha de Tamelão, cinquenta anos após sua vitória chamou a atenção de Poggio, que em uma carta diz “que a fama sólida já não pode ser adquirida por uma vida militar porque os feitos mais grandiosos de governantes são esquecidos numa geração, pela falta de historiadores que os anotem e elogiem convenientemente” (Poggio Bracciolini, Poggi Florentini Oratoris et Philosophi Opera, Basileia, 1538, p. 344). As conquistas militares de Tamelão ultrapassaram tudo o que fora alcançado na Antiguidade, no entanto, a memória delas desaparecera. Daí a atividade mais louvável será a que não dependa da ajuda de outros para ser preservada para a posteridade.

Os humanistas então persuadiram, com êxito, príncipes e estadistas de que todas as ações gloriosas não valiam a pena se não fossem incorporadas na memória da humanidade por historiógrafos (bem pagos).

Aí, entra um grande raciocínio de Eric Vogelin (História das Ideias Políticas, Vol. IV): Ao tempo de Poggio, já existia um longo caminho em direção à dissolução da preocupação cristã sobre o destino da alma na beatitude eterna e à sua substituição pela preocupação com o sentido da vida intramundana. Desde o século XIII crescera o desejo de desenvolver esse sentido intramundano; e agora, em meados do século XV, a fama tinha-se tornado o primeiro símbolo geralmente aceito para a expressão desse sentimento:

A vida intramundana da fama, após a morte, substituía a vida do além.

[Sobre o problema da fama ver Jakob Buckhardt, The Civilization of the Renaissence in Italy, Penguin, 1990].

Desse modo no século XV temos a adoção da fama como o primeiro sinal de substituição de prêmios espirituais (da vida eterna), pela fama adquirida pelos feitos na vida terrena.

Com o passar dos tempos a fama se tornou o eldorado de artistas, estadistas e daqueles que amam o poder. Tornou-se o paraíso possível em terra.

Eis que subitamente em nosso país surge o problema com que abro o texto. Volta a pergunta: -  - Por que a falta de lógica e do bom senso?

-Por que uma pessoa de 15 anos já matou seis e atentou contra dezoito, e mais uma vez foi detida ontem na região de Trancoso (03-07-2015), voltará a ser solto?

- Por que Champinha com 16 anos e seus comparsas, violentaram por cinco dias e mataram uma menina de 15 anos e seu namorado, e serão soltos por “bom comportamento”?

 - Por que aqueles que não querem a redução da maioridade dizem que “educação é a solução”, mesmo que o governo que apoiam ter cortado 9 bi na Educação, somente esse ano, e estarem a doze anos no poder?

A resposta me parece bem simples: é o confronto permanente com as instituições que valida a tomada totalitária do poder. Eles fazem isso todo o tempo, misturam tudo. Vociferam contra as leis que eles mesmo promulgaram em passado recente quando outros as usam.

Em nosso país, infelizmente, há a sobreposição da figura do artista como intelectual. Cronistas de cama e mesa, como Veríssimo, opinam sobre energia nuclear, e na área artística é ainda pior, cantores, compositores e artistas sem ao menos o segundo grau, manobram aqueles que gostam de suas obras.

O momento agora é de espanto. O ícone maior da indigência moral e ética perdeu-se no próprio veneno, quem se relacionou com ele está morto, falido ou preso. Estão em pânico, e a passagem da redução da maioridade penal foi a gota d’água.

“Como pode a sociedade civil ousar agir independente do Estado?”

Os oportunistas se alternam. Caetano e Gil gravaram seus “protestos”. Daniela Mercury idem. Os globais não faltaram. A indigente moral OAB fez coro à agonizante imprensa escrita.

A fama perdeu para a redução da maioridade. Mas não há problema, um robô da informática (cria perfil falso no Facebook) já xingou uma menina que apresenta a meteorologia na Globo, desperta o racismo. Os globais se juntaram de novo. A imprensa agonizante faz coro. A OAB vai dizer alguma coisa, e por aí vai.

 

 

13 comentários:

Bel B disse...

Gostei desta reflexão: "A vida intramundana da fama, após a morte, substituía a vida do além".
Não conhecia.

Na minha opinião, se um pessoa de 16 anos não pode ser responsabilizada pelos seus atos, não deveria votar, nem dirigir.
Concordo que "educação é a solução" inclusive para o Bolsa Família.

Anete disse...

Estas campanhas da redução da maioridade, do #somos todos Maju, nada mais são que manobras políticas.
Temos assuntos mais importantes a serem postas em prática.
Estas coisas aparecem como modismos e sem solução prática, tipo, fazer a comoção nacional, o politicamente correto.
Podem fazer 500 leis e elas não funcionarem. O preconceito não acaba nunca, #somostodospreconceituosos, seja quanto a cor, a situação financeira, ao tipo físico, a opção sexual.
Podemos aceitar, mas o preconceito está entranhado na nossa mente. Pois crescemos com estes parâmetros, quando vemos uma pessoa acima do peso, já vamos dando conselho para emagrecer, que as pessoas mais magras são mais saudáveis - isso e preconceito puro.
Mas o que é legal é que com o tempo e mudança de hábitos vamos acostumando com as coisas, como hoje já está comum ver pessoas do mesmo sexo de beijando. Como há 50 anos atrás era encarada a mulher separada e hoje são raros os preconceitos, embora ainda ouço colegas solteiras falando que não se sente bem andando com casais pois sempre rola ciúmes (isso é preconceito?)

Bel B disse...

Uma coisa é ter o preconceito entranhado em nossa mente, outra coisa é manifestar este preconceito com as pessoas. Ai temos que sair em defesa das vítimas..

Anete disse...

Com certeza Bel, esclarecedor. Acima de tudo respeito. Mas temos tantas vítimas que gera uma falta de liberdade de expressão, tudo é muito confuso.

Alvaro Risso disse...

Arthur, gostei do seu texto. O que a maioria das pessoas não entende é que a dita "esquerda" tenta criar o caos social para aí aparecer como o "messias" salvador, para "impor" novamente a ordem, só que agora através de um regime totalitário.
A pergunta que faço aos contrários à redução, é a seguinte: quando um filho seu faz alguma coisa errada, qual a sua atitude? E se após isso, ele repetir o feito, o que você faz?
Na verdade, o que a sociedade quer é a punição pelo ato delituoso e não a impunidade. E punição se faz através do afastamento do indivíduo da sociedade onde ele vive. A cadeia não é um hotel e nem uma escola. É onde os criminosos vão expiar seus pecados e, se não tem "cura", devem permanecer fora do convívio social. Colocar o presidiário para trabalhar é muito complexo, pois eles não podem ter acesso a materiais que possam usadas como arma. A solução viável é ficar apenas preso e no máximo estudar, sendo que esta última não o fará, necessariamente, deixar de cometer crimes.
Essa ladainha de que a educação é a solução, é mantra para a impunidade e para colocar um sentimento de culpa naqueles que não são bandidos, isto é, a sociedade. Nenhum Estado consegue educar aquele que não quer ser educado. Nem recuperar aquele que acha que já está no caminho certo (do crime).
Quanto ao racismo, vou esperar o "quadro clínico se estabelecer", pois está entrando aí uma variante política sobre o marido da Maju, publicitário responsável pelo FB da Dilma e ligações com a mulher do Pimentel, governador de Minas, envolvida em falcatruas.

Anônimo disse...

Art, estava com saudade dos seus posts. O blog estava moribundo, como eu disse uns dias atrás, aí você retorna as postagens e POU!!! 5 comentários.

Tem que amarrar estes bandidos pelo saco, cadeia nesses fdp.

O provocador.

art disse...

Pois é. Ainda falta apurar mais a notícia, mas a coisa da garota da Globo parece que possui mais um desdobramento. Diz-se aqui no Rio que o marido dela estaria envolvido em lavagem de dinheiro em Minas (affair Pimentel), através de uma agência de publicidade, por isso a MAV petista entrou em campo criando os tais perfis falsos para espalhar o factóide.

Fernando disse...

Eu tenho pena da mandioca,será que o PT vai acabar de destruir a pobre coitada.

Fernando. ( comedor de farinha)

Fernando disse...

Se não pode prende o menor então coloca o pai e mãe na cadeia.o tio fica fora.

A responsabilidade de criar o filho. É A FAMÍLIA + escola e trabalho .........não é o governo,igreja,OAB,psicólogo,cadeia,meu neném.

O que estar faltando é compromisso das pessoas resolver os seus problemas,fica procurando culpado.

Fernando (consulta $500,00 ......marcar horário)

Alvaro Risso disse...

Arthur, continuando o caso do racismo, li este texto: http://reaconaria.org/blog/reacablog/pepper-colhe-frutos-na-africa-bndes-operacoes-acronimo-e-lava-jato/

CB disse...

É um país de mamães, sem parafrasear Dilma, mas observando que sua eleição talvez seja também a revelação de um Álter ego brasileiro a que venho alfinetar.
As pessoas adotam um discurso de pena protecionista e esquecem do mal que fazem à sociedade, os vermes menores de 18. Esses protecionistas me lembram muito a forma como algumas crianças são criadas. Sacaneiam no colégio e voltam para casa, quando a diretora manda chamar os pais eles aparecem dizendo que o filho é um santo. Aí, quando esses protegidos quando viram políticos, de segunda, continuam a sacanear sob o discurso da "proteção", desta vez para "autodefesa da nação", afinal o sentimento maternal evolui para fora da mãe e torna-se o país, protege-se tudo que seja indefeso e minoria (de revelação infantil), menos a vida do outro, e daí nasce o paradoxo. O outro é nosso problema, e observe que neste aspecto protecionista toda mãe é via de regra uma "filha da puta" alheia ao outro (salvo exceções boas e ruins.), afinal ela quer que o filho dela se safe e foda-se a sociedade, então passamos a ter um Estado defensor do filho, mas desinteressado pelo outro, o outro que não se encaixa na categoria de filho... a classe média é o filho do meio diga-se de passagem.
Esse povo pseudo-sentimentalista ainda tem a seu favor a questão da fama e nessa, eles nadam de braçada, é dar a faca e o queijo para estes insensatos construtores da "desordem" buscarem apoio da massa de "mamães" para a proteção do seja-lá-o-que-for indefeso. Eu penso assim, cometeu crime? Tem que responder longe do convívio social. Independentemente da idade e do sexo!. O problema passaria a ser julgar, prender, pois a questão não devia ser a idade do marginal, mas o de pessoas que não tem nenhum senso humanitário (não tem pena e nem sabem o que é isso) para estarem nas ruas cometendo crime como se estivessem no video-game.

PS: Falei da mãe protetora que constrói os defensores insensatos, mas ainda existem as mães que constroem os marginais e os aleijados..., e tem salvação doutor? tem, mas essa é uma outra história.

Por enquanto nos resta saudar a mandioca.

Alvaro Risso disse...

Bela fala CB. Esse seu texto sobre as mães protegerem seus filhos, lembrou-me um texto sobre o inferno ser endotérmico ou exotérmico: o texto deduz que. se para uma religião, só os seus seguidores irão para o céu, os demais para o inferno, e como temos várias religiões com esse pensamento, todos acabaremos indo para o inferno.

As mães protegem e perdoam seus filhos dos delitos praticados como se as vítimas deles não fossem filhos de alguém. Confirma a Teoria do Gene Egoísta.

CB disse...

Alvaro, correto, acrescento que todos acham que estão sozinhos nas suas religiões ou que o objetivo é ficar sozinho, matando o proximo. A sociedade se desconectou em algum ponto no passado, não sei onde foi, mas com certeza a religião é a substância mor dessa escultura social.