quarta-feira, junho 05, 2013

Lygia Pape



Lygia Pape foi uma artista neoconcretista carioca (1929-2004) que junto com Hélio Oiticica e Lygia Clark fizeram uma verdadeira revolução nas artes brasileiras. Decorrente desse movimento, posteriormente foi possível o surgimento do cinema novo, da tropicália etc.

Como somos vizinhos de sua família aqui no Jardim Botânico, seu genro me pediu um texto singelo sobre uma das obras, encenada em Hong Kong semana passada. A obra é nomeada, Divisor. O Divisor é um lençol de 30 m por 30 m onde se encontram furos onde os participantes colocam suas cabeças, ficando o lençol preso aos ombros dos mesmos. Segue o texto sobre a obra, que está colocado na página do Facebook da artista.



Divisor


Lucrécio foi o primeiro filósofo a articular a teoria da ideologia, pela qual uma elite promulga a mistificação da realidade com o propósito de manter uma população submissa, servindo a seus próprios interesses.

A filosofia epicuriana inicialmente libertava os homens dos “medos da mente”. Os medos provinham então dos fenômenos atmosféricos, e portanto, na visão dos antigos, de fenômenos celestiais, como eclipses, tempestades e terremotos que eram tomados como manifestações do divino, eram tentativas, por parte dos deuses, em ferir os homens e destruir suas posses.

Lucrécio, em sua teoria da ideologia, entendia que a filosofia deveria também libertar os homens da servidão in/voluntária a outros homens e deuses.

Em contraste com o sistema aristotélico, cuja ontologia misturava matéria e forma, substância e qualidades, os quatro elementos, os quatro tipo de causas, movimento celestial e terrestre, e os processos de geração e extinção, o sistema epicuriano era facilmente visualizado e entendido, uma vez que o mesmo reconhece formalmente somente o cheio e o vazio, “corpus et iname” sob movimento. Os átomos se encontram na e pela turbulência: é a raiz da construção atomista. A circunstância da geração é de tempo incerto, em lugares incertos, em todo caso não determinada.

Com exceção de Thomas Hobbes nenhum filósofo do séc. XVII pôde reconciliar seus pensamentos ao sistema atomista e suas consequências na moral, política e religião, identificando como Lucrécio, séculos antes uma teoria para a servidão.

Felizmente temos uma indicação mostrada pela genialidade do neoconcretismo de Lygia Pappe: Divisor é uma obra que representa de imediato, os corpos e o vazio que os separa (corpus et iname). Secundariamente estabelece ligações que os mantêm juntos. Na obra não se admite a presença da turbulência, o movimento deverá ser laminar se o grupo se puser em movimento, havendo apenas uma direção a ser tomada. Nesse caso não haverá a criação, pois não há turbulência (caos). As ligações estabelecidas são equidistantes impedindo experiências individuais, tentativas, ousadias, crenças, testes de circunstâncias, onde se procuraria um possível progresso, os elementos estão antes de tudo ligado ao todo.

A identificação dos elementos da obra se faz pelas cabeças dos indivíduos, não pelo seu corpo, não pelo todo-indivíduo.

Divisor é a representação contundente da ideologia, seja ela moral, política ou religiosa, e infelizmente, nunca foi tão atual.



Um comentário:

Bel B disse...

Arte muito abstrata para minha cabeça concreta.