sexta-feira, março 15, 2013

Vovô Nunça


Ao querer escrever sobre o meu avô, deparo-me com uma inabilidade de encontrar as palavras certas para escrever sobre aquilo que lhe era peculiar. Ele mesmo não era um homem de muitas palavras, então não é de se estranhar que seja difícil descrevê-lo sucintamente. Aqueles que menos falam são os que nos levam a falar mais. A maior parte de minhas lembranças não remetem a conversas ou grandes discursos, mas a pequenos momentos compondo um grande retrato.
Lembro-me de sua expressão, a que lhe era mais usual, quase estoica quando observava algo num horizonte inexistente, uma expressão que não remetia à resignação, mas uma preocupação inerente e perpétua quanto a aqueles que amava. Falava muito sobre cuidar de nós todos. Era impossível vê-lo sem que perguntasse como estava e se precisava de alguma coisa, qualquer coisa. “É só ligar que eu apareço” tornou-se uma espécie de frase de despedida. Queria lembrar-me se foi a última coisa que me disse, mas não sei. Gostaria de pensar que tenha sido.
Uma memória em particular me vem à mente, de um momento não mais importante que qualquer outro; uma memória de um ato repetido diversas vezes. Quando adormecia, principalmente quando era criança e morava com ele e minha avó em Conquista, tinha (e de certo modo ainda tenho) um sono inquieto. Me movimento demais na cama, para tormento de minha mãe que por muitos anos teve o desprazer de me ter adormecido ao seu lado, e acabo por “jogar” meu cobertor para fora. Lembro-me claramente de meu avô sempre levantando-se ao ver-me naquele estado infantil (e ainda assim tão recorrente durante toda a vida, mesmo adulta) descoberto e, de certo modo, desprotegido, e cobrindo-me novamente, dando-me um gentil beijo na testa.
O Bisa e a bisneta
Vendo-o lá, no velório, esperava de certo modo que fosse uma pequena blague, uma brincadeirinha de sua parte. Por vários minutos, observei sua barriga, lá deitado, esperando que ele se cansasse, tomasse um gole de ar, e que ela fosse para cima e para baixo, que tudo não fosse mais que uma travessura daquele homem que nunca deixou de ser criança.
Eu devo dizer que não chorei. Não chorei ao saber de sua morte, não chorei depois, nem mesmo no velório. Não achei justo chorar por alguém que sempre desejou a minha felicidade. Eu realmente pensava que choraria ao vê-lo no caixão. Eu pensava que não poderia aguentar vê-lo ali, tão presente, e saber que nunca mais ouviria uma palavra de seus lábios ou vê-lo tentar, sem sucesso, sorrir escondendo seus dentes (dos quais, minha mãe gosta de lembrar,  ela mandou-o diversas vezes cuidar.), mas eu decidi que não. Não era justo. Não chorei e não chorarei por sua morte. Guardo as lágrimas, guardo-as no meu âmago, e espero um momento de felicidade; um momento de frio à noite em que terei que me cobrir e chorarei um choro silencioso, não pela sua morte, mas por lembrar, nostalgicamente feliz, de todas as noites em que fui, tão carinhosamente, coberto.

6 comentários:

Anônimo disse...

Diego,
lindas lembranças de Seu Inocêncio que valem a pena serem registradas. Parabéns pela sua sensibilidade e coragem. Karla

Luladasequacao disse...

Diego, parabens pelo seu artigo. Tanto o conteudo e a forma estao fora de serie. Acho que voce colocou "em papel" o sentimento de todos nos com a perda que tivemos.

Quando crescer eu quero escrever asim.

Bel B disse...

Muito legal o neto escrever assim sobre o avô. Emocionante. Nunça realmente era muito carinhoso, principalmente com crianças.

Diego, copiei a foto, muito legal também, do seu facebook e coloquei para ilustrar o texto.


Fernando disse...

A vida é uma luta, cheia de desafios e passamos por ela preocupados com um bocado de besteiras, brigando, preocupados com dinheiro, etc... No final não se leva nada, mas pode se deixar um legado. Acredito que poucos recebem uma homenagem como esta vinda de um neto.

Anônimo disse...

Lindas e cheias de sensibilidade as suas palavras Diego, para o seu avô.
Faço minhas as palavras de Lula:"quando crescer eu quero escrever assim..."
Meus sentimentos para toda a familia.Vane

Anônimo disse...

Só tenho que agradecer ao Destino por ter conhecido Nunça. Ser seu amigo sempre foi muito bom. Desde o Veraneio em ITACARÉ em 1970 (43 anos) até 12/03/2013 foi só satistação em conviver com ele. Lembro também que é o primeido dos caminhantes dos "Primeiros Passos" que se vai, e com certeza vai preparar o nosso caminho. Beijos Nunça. LERI