sábado, dezembro 01, 2012

Brincando de Filologia

O post anterior foi escrito para mostrar o grau de pesquisa que envolve tentar escrever um livro sobre um século que não se viveu (é óbvio). Uma questão simples na verdade é o maior problema que me deparei. Como falava o homem do sec XVI?. E, por conseguinte, como o sujeito pensava. Se não há o vocábulo não há a idéia. Absoluto e Abstrato, por exemplo não existiam no francês da época, mas alguns dos meus milhares de leitores podem argumentar, "Ó algoz careca das palavras, havia o Latim". Isso é fato. O latim já era então uma língua morta, mas aprendida na França durante a infância dos mais cultos. Havia o latim dos professores e o latim dos estudantes (que era mais chulo, mais objetivo). Voltemos aos exemplos, absoluto em latim é (ou era) absolutus, mas seu significado era "inacabado", não tinha emprego filosófico. Abstrato por sua vez, era abstractus, que significava isolado ou distraido. "..para traduzir uma idéia, é preciso já possuí-la; que o sinal da posse em semelhante matéria é a palavra; que quem não tem a palavra em seu francês vulgar, evidentemente não pode procurar como traduzi-la para o latim", ensina Lucien Febvre, que brilhantemente pergunta: "O latim era capaz de dar à luz idéias que hesitavam em nascer?".

Adequado aparece em Spinoza, (1660), materialismo é de Voltaire em 1734, coordenação ou classificação é de 1787 ("esta palavra bárbara forjada há pouco", conforme o Dicionário de Francês na época), racionalismo é do século XIX, e assim por diante.

Agora vamos transportar essa dificuldade filológica para o campo das ciencia exatas. Aí o cão chupa manga dentro da garrafa. Boyle é de 1662 e Mariotte 1676.

Imagino Dennis Papin (1647-1712), o inventor do conjunto pistão-cilindro fazendo seu experimento (ele já havia criado a panela de pressão e realizado o famoso jantar para 400 pessoas em 4 horas, na Royal Society em Londres, incusive o Rei. Como ele não conseguia explicar seu invento achou melhor fazer o experimento para que todos vissem e o comessem).

Bom, o experimento que viria a se tornar um motor a vapor foi feito com um tubo de cobre de 50mm de diametro, onde ele ali introduziu um pistão de madeira e couro bovino, o pistão podia deslizar no interior do tubo. Uma das extremidades do tubo foi fechada herméticamente, e a outra permaneceria aberta. Próximo à parte aberta do tubo, Papin fez um furo e colocou um batoque que poderia segurar o pistão quando o mesmo estivesse naquela posição. Ele colocou um pouco de água no fundo do tubo e deixando o pistão livre ele colocou o tubo no fogo, de modo que a água transformada em vapor empurrou o pistão para o alto. Na posição do furo ele introduziu o batoque prendendo o pistão naquela posição, colocando em seguida o tubo no gelo. Transformada em água o vácuo foi criado. Tirando o batoque, o pistão desceu violentamente. Ironicamente, somente em 1712 ano de sua morte é que Newcomen (Thomas), construiu o primeiro motor a vapor.

Mas por que isso tudo aconteceu na Inglaterra? Porque a parte da metafísica de Aristóteles que chegou à Oxford não foi a tradução latina (via os Romanos), como aconteceu na Universidade de Paris, mas sim uma outra parte pela tradução árabe. A Universidade de Paris a segunda a ser fundada na europa (a segunda foi Oxford) possuia Teologia, Direito (canônico e eclesiastico), os franceses só vieram a mexer com tecnologia quando fundaram Escola Politécnica (que era de inspiração militar) em 1794.

Ora, os árabes mais sábios mantiveram os escritos em grego obtidos nos balcãs, e como moravam na Espanha (mais precisamente Córdoba), o citado conhecimento da física, passou para a recém fundada Universidade Inglesa.

Por aí se pode ver a importancia da tradução literária, da palavra e do pensamento da filosofia no crescimento do mundo, mas aí já é outra história.

2 comentários:

CB disse...

Brother, senti falta de Rene Descartes 1596-1650 nas suas citações, é praticamente o miolo da idade moderna e vê-se um movimento preparatório para a revolução industrial, Rene embasa o racionalismo industrial que estoura logo a frente na revolução (isso é opinião minha, corrija-me se estiver errado). Diga-se de passagem que neste período tem Shakespeare e Bach.. o mundo estava pegando fogo e até hoje nos esquentamos nas cinzas.

art disse...

Sem dúvida. Descartes é o artífice disso tudo. Ele foi a síntese do aprendizado do renascimento. /Faltou mesmo, vou contextualiza-lo em outro post