terça-feira, julho 18, 2006

A volta da bandeira

(por Leri)

“É medindo-se ante um obstáculo que o homem aprende a se conhecer” – Antoine Sant Exupéry.

“A capacidade de ser feliz é um dom que cada um carrega dentro de si.”- Almir Sater.

Para falar sobre a “VOLTA DA BANDEIRA” ficou difícil porque depois do relatório de Carla, não se tornar repetitivo é impossível.Não sobrou quase nada para quem vem depois dela. Dizem quem chega no poço primeiro bebe água limpa, e Carla usou deste expediente, aliada e sua técnica apurada, senso de observação e narração, fez um trabalho lindo e emocionante,

principalmente para quem viveu aqueles momentos. – Carla, você foi destaque na caminhada e também depois dela.

Quando me propus ir a caminhada, às vezes eu ficava me perguntando: o que é que eu vou fazer lá? Não já andei os primeiros passos? Será que estou disposto mesmo a sair do conforto de minha casa para entrar nessa aventura? Eu conheço tão pouca gente deste grupo. Realmente, e quando cheguei a concentração na fazenda de Califa e Noélia e conheci o grupo, cheguei a seguinte conclusão: é um grupo difuso, heterogêneo, com pessoas tão variadas em idades e origens. Se “PRIMEIROS PASSOS” que era tão unido e coeso teve momentos que se duvidou que chegasse, imagina este. Não comentei com ninguém, mas fiz a minha aposta comigo mesmo: vai até o terceiro ou quarto dia no máximo. Bem, se não terminar vou para a fazenda de Nunça ficar o resto dos dias “comendo água” e jogando baralho. Já no primeiro dia quando Serginho e Anamira se perdem logo na saída e se ficou esperando na beira do rio Angelim, para Valmir encontrar os dois, pensei: “bela arrancada” e quando Bela resolveu “gravar” o seu CD na marra à noite, eu disse: “é hoje, e bem mais cedo do que eu esperava”.

Mas com o passar dos dias o grupo foi se fechando dentro dele mesmo, criando elos fortes de amizade, de solidariedade e principalmente de determinação. Cada dia se acordava mais unido e mais ousado em vencer as etapas que se apresentavam cada dia mais difícil. Minha intenção inicial era caminhar em dias alternados, curtindo os lugares, mas quando vi a trabalheira doida que era ser apoio, fui adiando, e no início do quarto dia, quando caminhava com Carla completando os oito quilômetros que tinha sido percorrido de Toyota, ela foi determinante e direta: “Você já perdeu todos os seus direitos de não caminhar”.Isso me chocou. “Se eu parar será que não vou motivar a parada de mais pessoas?” Serginho, Filipe, Daniela, Carla, Jojó, Engenheiro, etc, a esta altura do caminho para Vila das Graças já estava formando uma corrente que eu achei que era um elo que poderia fazer falta. “Ao diabo com dias alternados; vou até o fim”.

Só que eu não sou o que pensava que era e muito menos o que gostaria de ser: e no final do quinto dia botou tudo em pratos limpos, e bem limpos: a parte emocional e física entrou em pane geral, saldo negativo, parafuso e outras coisas mais e com direito a lágrimas, e foi determinante um dia de férias para recarregar as falidas baterias.

Hoje, descansado, tomado banho e alimentado, posso ate pensar que daria para fazer a sexta etapa; fica ate fácil pensar assim, mas acordar cedo naquele dia, cortar capim com o rosto por quatro horas e depois rasgar vinte km na lama, subindo de uma altitude de 300 mts para quase 1000, acompanhado por apenas três ou quatro caminhantes fugia totalmente dos propósitos da caminhada, então beber a venda de Dona Amália foi uma opção bem mais sensata e um bilhão de vezes mais agradável. Foi um dia excelente que teve de tudo, desde o CD de Bela e Emerson, os litros de Cortezano e “Sabão de Coco”, cerveja e envelhecida correndo solto, o rítimo contagiante de Daniela e ate a dança de capoeira de seu irmão “irresponsável”. – Argolo-Bornai, Dona Amália já deu as caras?

No sétimo dia, mesmo depois da epopéia da F.1000, do stress dos socorros e providências necessárias, caminhar na “rodagem” e em terreno enxuto e plano foi uma moleza comparada com as etapas anteriores e o oitavo dia, 22 km de mais terreno plano em descida, e com a expectativa da festa de chegada, com o nível de álcool adequado nas veias, todos chegaram “avoando” no Brejão e a sensação de missão cumprida era o máximo.

Difícil mesmo foi voltar, e voltar a vida normal, ao pão nosso de cada dia. A vida parecia pegar no tombo, falhar, as coisas pareciam que tinham se modificado junto com seus valores, a deliciosa lembrança da caminhada impregnada na mente, o sono de toda noite sendo invadido, e até por pesadelos: sonhei varias vezes que estava na mata perdido do grupo . Mas ao ver o reflexo desses onze dias, reconheço que foi muito importante em minha vida, talvez os dias mais inesquecíveis.

Só tenho que agradecer àqueles que proporcionaram esses dias:Califa e Noélia com seus costumeiros banquetes e hospitalidade em seu palácio Fazenda Itapoan; Edinho, D. Norma e Noelia no apoio totalmente “desapoiado” de uma estrutura de pessoal mais eficiente (exceção a Valmir que foi um gigante em todos os momentos); a Carla e Anamira que com seu jeito “barulhento” que nos proporcionou uma recarga de bateria tão essencial, em sua fazenda, talvez o dia mais divertido; a Edinho, que presidenciou a caminha de forma incetivadora, firme e serena,; a família Oliveira Matos pela feijoada deliciosa e casa aconchegante onde dormi, fora festa de aniversario, etc (– Filipe, admiração e gratidão eterna pela armação de minha barraca em Água Sumida - Daniela, sem sua alegria a caminhada teria sido fosca!); a família Nunça com o seu apoio pré-caminhada, uma recepção e festa com dois dias de fartura , alegria e carinho. - Nunças, só vocês mesmo!; a Serginho. Bem, esse é um parágrafo à parte.

- Chumbada, você, com a ajuda de Edinho, segurou a caminhada “pela venta”, lutou e esperneou para que ela acontecesse, levantou o roteiro com a ajuda de Fabrício, agüentou e freqüentou todas as nossas reclamações e jamais reclamou de nada. Foi um valente sem dar um ai sequer, planejou, comprou, pediu, promoveu, mas no final teve seu premio com o reconhecimento do evento como de extremo sucesso. Eu não esperava nada diferente de voce, pois você foi pintado com a tinta marca Barreto-Viana, e é por isso que você não desbota nunca.

Destaque especial para Noelia que depois de caminhar aquelas etapas difíceis, ainda achava forças para tomar a frente da cozinha. – Noe, tu tomavas arrebite?, porque eu chegava “adefuntado”.

No final agente fica analisando como se precisa de tão pouco para ser feliz: não se tinha conforto, se dormia mal, as vezes com fome pois se alimentava fora dos horários normais, se estava quase sempre muito cansado e as vezes totalmente esgotado, sempre sujo e fedendo (Carla que o diga de minha camisa amarela), banhos precários, calos nos pés, carros velhos dando trabalho, e a certeza que no próximo dia seria pior ainda. Mas eu duvido que tenha alguém que não repetiria tudo de novo, e com mais prazer ainda. Minhas previsões iniciais sobre o grupo e o desfecho final foram totalmente furadas, felizmente, e hoje estou roxo de saudade de tudo e de todos.

Beijos,

Leri

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