sábado, julho 22, 2017


O que eu falo é o que você entende?

No final da década de 1990, fui professora temporária na Escola Politécnica da UFBA na disciplina de Materiais de Construção. Naquela época, os alunos, jovens de 18 e 19 anos (2º ano na Escola), gostavam de justificar qualquer assunto ou começar uma frase com o sujeito “os paradigmas da construção civil”. Um dia, conversando sobre um assunto qualquer, depois da referência usual, perguntei a que paradigmas eles estavam se referindo. Entreolharam-se e o mais safo disse: ah professora, é tudo isto que está aí!”

Estava aproximando o novo século e todos procuravam expressões “novedosas”. Aí, chegaram dois preciosos adjetivos: sustentável e ecológico. O “sustentável” é tão importante, que em muitos países da América Latina de língua espanhola, usam-se dois termos: sustentable e sostenible. Não consegui entender a diferença entre os dois, ainda mais porque o que é sustentable em um país é sostenible em outro e vice-versa. Na engenharia civil, e principalmente na arquitetura, tudo teve que ser ecológico para ser bom. Agora, novos profissionais se classificam adoidamente como bioconstrutor e bioarquiteto, só que a definição de um sobre esta auto titulação não corresponde a de nenhum outro. Em outra área, chegou a vez dos transgênicos (o diabo) e dos orgânicos (o anjo), só que ninguém sabe exatamente do que se trata.

Sempre me preocupei com o uso destes termos “amplos” que permitem qualquer um entender da sua própria forma, enquanto que você “acha” que o outro entende o que você está falando.

Recentemente, aconteceu uma situação muito peculiar que exemplifica o descompasso entre o que se fala e o que se entende.

Elisa, a neta de 4 anos, adora elefante rosa. Aqui em casa, tem uma toalha rosa com capuz de elefante que Elisa se enxuga, se enrola para ver vídeo e para dormir. Logo que Nara e Eduardo mudaram de casa, Elisa disse que gostou bastante do local, principalmente porque dá para ver o lavador automático de carro do elefante rosa. Sempre que passamos próximo deste lugar, Elisa faz algum comentário sobre o bicho. Há poucos dias, fomos buscar Paula e Elisa na escola e, no caminho de casa, passamos próximo do lavador do elefante rosa. Como sempre, Elisa demonstrou que gostava do elefante rosa e, informou: “papai não lava o carro aí porque é caro”. Depois de comentarmos sobre as possíveis comidas cor de rosa do elefante e outras bobagens, eu perguntei:

- Elisa, você sabe o que é caro?

- Sim, respondeu Elisa.

- E o que é?

Prontamente ela esclareceu:

- É ter que sair do carro para lavar. Ele vai sozinho!

Para tentar entender o entendimento firme de Elisa sobre o que é caro, comentei anteriormente com Eduardo sobre o entusiasmo dela quando passávamos pela lavadora de carro do elefante rosa. Aí Eduardo disse que não gostava do serviço deles: tinha que sair do carro no processo da lavagem e, ao receber, não estava bem lavado; além disso, era mais caro. Elisa escutou, associou e interpretou. Aí fica claro como se juntam informações que são particularmente interpretadas. Não dá para assumir paradigmas....

2 comentários:

Bel B disse...

Na época que eu trabalhava havia também esses "modismos vocabulares", geralmente surgiam nas áreas de Administração e RH. As pessoas iam para um curso de reciclagem e voltavam cheios de palavras novas. E era como um vírus, de repente todo mundo falando, sem mesmo saber o conceito. E estamos falando de pessoas de nível universitário...
Quanto as crianças, são surpreendentes, com suas deduções lógicas... Eu agora estou curtindo Lara aqui durante a semana. É cada uma!...

art disse...

Na verdade a palavra paradigma é um neologismo descoberto por Thomas S. Kuhn em seu livro canônico "A estrutura das revoluções científicas". Ali, o autor coloca o paradigma como um degrau a vencer no desenvolvimento científico. Karl Popper foi o primeiro epistemologista a cuidar do assunto. As palavras, por capilaridade, ganham outras conotações quando saem das condições de contorno de sua matéria específica.

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