domingo, janeiro 17, 2016

Férias


 
 
 
 




Entrei na sede da fazenda com as botas encharcadas que me lembravam das frieiras com seus germes nadando nas meias molhadas.
Coloquei a espingarda no lugar errado e abri a geladeira. Peguei uma garrafa d’água.

Uma sucupira encontrava-se sentada na poltrona da sala. De pernas cruzadas, me olhou com tédio.
- Temos um jeito de acabar com as frieiras – disse o monstro.

O homem que tinha medo de alma penada estava de pé, à frente da porta ao fundo da grande sala, segurava um lençol e um facão.
- Mas vosmecê tem de ser corajoso e crente, sinhô – disse a sucupira.

Uma guerra e uma lágrima me chamaram a atenção, mas voltei às palavras da sucupira.
- Arrume um cobertor, um pouco de cachaça e fogo. Cubra a cabeça com o cobertor. Molhe as frieiras com a cachaça e coloque fogo. O Sinhô deve apagar o fogo abafando com o cobertor quando sentir dor.
Com o ruído do motor a sucupira se foi para a terra dela.
Patrícia me perguntou ainda:
- Cadê a sucupira que estava aqui?
- Foi-se - respondi - dizendo que ia aumentar os impostos
Voltei para a proa e me sentei ao lado de um sujeito pequeno e esquisito.
- Qual é o seu nome? perguntei
- Chumbinho - respondeu o sujeito pequeno - sou nativo daqui e moro na areia
Sujeito curioso avaliei, não me senti à vontade para discutir o paradigma de Popper, sobre a tolerância, com aquela criatura:

"Não se pode ser tolerante com os intolerantes", ensinava Sir Karl Popper. 

Consolei o baixinho que via, com aparente tristeza, as pessoas pegando outros chumbinhos na areia da Coroa.

- Podemos morrer como indivíduos, mas nos eternizamos em raça.
- Desconheço se os coletivos são eternos – respondeu o chumbinho.
- Realmente acredito que você entenda disso, não é?



 
Dois cardumes de maçambê passaram por sobre minha cabeça. Cavalas e gaivotas os perseguiam. Todos de argila.

Fundearam o barco e voltamos pra casa guardada por orixás eternizados em azulejos.  Cada um no seu. Não pude deixar de me perguntar como será que os orixás interagem entre si na solução do conflito de interesses, mas a verdade não gera conflitos (tá bom, vou consultar Leibniz após as férias).



 








Desconheço, ó amiguinhos, por quanto tempo fiquei no alto da casa flertando com as palmas dos coqueiros maquiadas pela luz do sol. Bom, “tenho de viajar”, resolvi descendo para o mangue em busca do portal inoxidável, ortogonal e quântico.  Criaturas jovens e perfeitas flanavam na superfície da água. Guardavam o portal.com. br.

- Posso passar por ali?
- Mostre suas armas – disse uma delas.





 
Apresentamos as três garrafas de banho de descarrego, as jovens balançaram os cabelos e o portal se abriu e nossa frota de quatro barcos entrou rio acima.

Um dragão de quatro grandes pernas entra pelo rio rebocado por um demônio vermelho, sem nos ameaçar. Algumas sereias contavam mentiras, "é da natureza das sereias" pensei. As mentiras foram suficientes para fazer dois dos barcos retornarem. Os restantes se mantiveram na missão original.
- Ele não tem mais fogo nas ventas - disse um companheiro.
De fato, o demônio vermelho e alguns outros menores empurraram o dragão, agora adormecido, para a margem do rio, em frente à minha terra natal.
Somos três cavaleiros dispostos a tomar a cidadela inimiga. As armaduras estão pesadas.
- Vamos nos livrar delas.
E assim foi feito, retiramos as armaduras e entramos na cidade quase nus.
Os sitiados arremessam óleo aquecido em nosso caminho, gritando palavras estranhas, nossos cavalos estavam perdidos, e assim seguimos a pé com o flautista à frente em busca do mago.

Pisar naquele solo se torna insuportável, está muito quente, mas alguns nativos nos socorrem com tapetes voadores. Seguimos em frente em busca do mago que achamos em uma estranha casa cheia de garrafas e adereços.  A única que sobrou.

O cenário é desolador. Sonhos transformados em concreto armado jazem abandonados. Investimentos de toda uma vida inutilizados pela sanha facínora da Sucupira e sua quadrilha. 

- Petro refeições - leio o nome do restaurante abandonado, com o dono sentado à porta. Provavelmente procura identificar dentro da cabeça a fronteira entre a loucura, o real e o imaginário.

Gigantes de aço estão de boca aberta esperando o oxidar de suas entranhas. Descaso, arrogância e incompetência destruíram a cidadela antes de nossa chegada.

Um posto de gasolina tem um teto agonizante sobre as bombas vazias e inúteis.  

A água quente, com peixes nervosos ocupados com seus negócios, me morde os pés.


6 comentários:

Fernando disse...

... Quanto tempo levou para o cidadão voltar a Terra Natal ! e quando volta descobre que Sucupira e dragões acabaram com a esperança... Auriverde pendão da minha terra!....

Sarou a frieira pelo menos?...

art disse...

Pô Pango, a frieira foi curada com alopatia básica da Dra. Pat. O método citado é o método usado por Mister (me parece, Robinho me lembra!)na Faz. Itapoã. O que vi em São Roque vejo em escala em Itaboraí pelo Comperj (quando vamos pra Cabo Frio passamos inevitavelmente lá).

art disse...

O Dragão é uma plataforma de petróleo (acho que era a XVII)própria que estava produzindo menos grana do que gastava, assim , foi para S.Roque para entrar em lay up.

art disse...

Entrou no Paraguaçu junto conosco.

Bel B disse...

Faltaram fotos para ilustrar..

art disse...

Agora coloquei as fotos solicitadas pelos milhares de leitores.