terça-feira, janeiro 14, 2014

Viagem a Cuba


Ao descer do avião já tive a noção do que viria pela frente, roupas iguais a do Fidel, um "vermelho PT" no aeroporto inteiro (até exagerado), relógios e ar condicionado quebrados e uma demora de 40 minutos para chegar a mala na esteira. No caminho até o centro de Havana percebi que ao invés do avião em Guarulhos,  pegamos o Delorean do Marty McFly e voltamos ao passado,  carros que só tinha visto alguns em toda a minha vida, lá tem um em cada esquina, também muito Lada, resquício da ex-URSS.
Quando chegamos na casa da Cachita (uma Cubana de 39 anos, solteira e um filho de 8 anos, Marco) fomos recebidos como se estivéssemos em casa, o lugar muito simples, com canos e fios aparentes, uma cozinha menor do que a dos apartamentos de hoje em dia, com no máximo 3 ou 4 pratos e 4 copos tipo "requeijão", isso era toda a louça; mas a limpeza era impecável. Logo começamos a conversar como se sucediam as coisas em Cuba, perguntei se ela trabalhava, a mesma disse que não pq trabalhar para o Fidel para ganhar 10 CUC por mês não valia a pena (isso equivale a  mais ou menos 25 reais por mês,  isso mesmo 25!). Bom, ai perguntei qual o maior salário? A resposta: 30 CUC por mês ( 75 reais), dos médicos, policiais e militares. Pagamos 100 CUC por 4 dias de hospedagem (quase um ano de trabalho).
      Bom mas ainda tem que pagar água, luz, gás, telefone e comer! 
      Ahaaaaa, ai é que esta o segredo! O governo tem uma outra moeda, chamada peso ou moneda nacional (MN) que vale 25 vezes menos que o CUC, então a pessoa que ganha 10 CUC por mês, na realidade ele ganha 250 MN. Como tudo que existe em Cuba é do "Fidel", a água eles pagam uns 7 MN, gás uns 10 MN, a luz se a pessoa tem TV e ar condicionado  uns 100 MN e para comer o governo dá uma quantidade  pequena de arroz, feijão, café, açúcar e leite para crianças de até 8 anos; produtos de higiene é por conta de cada um (por isso é tão difícil encontrar papel higiênico e sabonete nos restaurantes), só que esses produtos são vendidos em CUC, até o refrigerante fabricado em Cuba custa 0.70 CUC, água 0,45 CUC (os mais baratos que encontramos). No dia seguinte fomos tomar café da manhã na casa de um médico e uma psicóloga,  na estante da sala, livros de medicina e os do "Che" se misturavam, aliás, desde o primeiro dia tive a impressão de que a revolução acontecera há menos de um mês,  figuras do Fidel e do "Che", dizeres de "socialismo o muerte" e "pátria o muerte" em todos os cantos; uma verdadeira lavagem cerebral!
    Havana é também um theatro municipal a céu aberto, uma orquestra numa praça, um baile de tango no calçadão, quadros  em todos os cantos e música em todas as esquinas, aliás, muita música!
    Duas coisas me chamaram a atenção, turistas com máquinas fotográficas caríssimas no pescoço e o caixa eletrônico diretamente na rua, pessoas sacando dinheiro na calçada como na Europa. E assalto, não tem?
     Depois de 4 noites em La Habana fomos para Varadero, uma espécie de Cancun em Cuba, ficamos em um resort all inclusive, como tudo é estatal, era como se estivéssemos sendo atendidos pelos funcionários do Detran (não preciso nem dizer se o atendimento foi bom ou ruim), fora esse detalhe e a comida, o lugar é fantástico!
     Cinco noites depois fomos a Santa Clara, uma cidade tipicamente universitária,  ficamos na casa de uma enfermeira, Cary e seu filho Lázaro professor de inglês e espanhol. Cary deixou a enfermagem há 4 anos onde ganhava 15 CUC ( R$ 37, 50) para se render ao capitalismo do turismo,  seu filho fez o mesmo. Essa cidade foi onde o "Che" descarrilou o trem blindado do governo Batista e se sucedeu a revolução. A universidade é a segunda maior de Cuba, é bem parecida com o campus da USP de São Paulo, onde também o Che lecionou por um tempo antes de ir a Bolívia.
    De lá seguimos para Trinidad, uma cidade linda e turística parecida com Paraty, construida pelos Espanhóis na Época do açúcar e  banhada pelo mar do Caribe, ficamos na casa da Yumara, uma engenheira industrial e um professor que também se renderam ao capitalismo,  saímos de lá no dia em que a cidade completava 500 anos.
Uma coisa que observamos era o medo que inundava a mente das pessoas, umas mais outras menos, mas todos tinham medo de falar mal do Fidel e do Raul Castro. Na volta para Havana, pegamos um táxi e por um acaso nos deparamos com o "Jeitinho Cubano", sorte que o taxista era o único que não tinha medo de falar do sistema e nem de meter o pau no Fidel. Ao pararmos no posto de gasolina, o taxista parou atrás da loja de conveniência perto do mato, o lugar já tinha 3 carros estacionados e todos estavam enchendo o tanque com galões escondidos no mato. O negócio funciona assim, o caminhão que transporta a gasolina só coloca uma parte da mesma no tanque do posto, o restante eles roubam do estado e revende mais barato em galões que ficam escondidos no mato, o cara que transporta leite faz a mesma coisa e assim por diante, com isso eles ganham o seu “extra”.
        Essa experiência me fez refletir quanto o dinheiro influencia em nossas vidas, nas nossas decisões e nas nossas escolhas………
        Ahhh, esqueci um detalhe, o Raul e o Fidel Castro estão comendo Lagosta e camarão todos os dias e viajando de avião!

12 comentários:

Anônimo disse...

Leon,

Parabens, sua aventura e reportagem estao fora de serie!! Eu ja conheco 27 paises e nunca tive uma aventura to interessante nem reportei tao bem. Eu conheco India e China, mas sempre viajei como turista abastado representando firmas. Grande experiencia, obrigado por dividir tao bem.

Lula(dasequacao)

Igor Matos disse...

Grande aventura, reportagem nota mil. Posta umas fotos.

Anete disse...

Creio que dá para viver sem consumismo.
Mas sem liberdade é difícil.

Bel B disse...

É bom ler a reportagem, porque este turismo nunca tive vontade de fazer. Índia também é um lugar que não me atrai. Como não tenho dinheiro para viajar pelo mundo todo tenho que selecionar...

Fernando disse...

Quando eu me lembro que eu tinha uma simpatia por Fidel e Che penso em suicídio.

eleusa disse...

Leon, o seu texto foi tão bom que viajamos no tempo com você. Parabéns.

Leon Risso disse...

Obrigado pessoal! Resolvi descrever um pouco que vivi sob o meu ponto de vista. Como coloquei o texto tb no facebook, meu pai me perguntou se não tinha construções novas, a resposta está ai.


Pai, o governo não consegue se sustentar, por isso abriram para o turismo. Eu vi muitas restaurações (só apagando o fogo), mas nenhum prédio moderno ou coisa assim, mesmo em Vedado onde é o centro novo; eles constroem ou restauram onde a área tem turismo. Já em Varadero é outra coisa, resorts enormes como RIU..... ai fiquei intrigado e fui perguntar. Se tudo é do Fidel, como pode ter um RIU por aqui? Aí é que veio a maior das ironias! Todos os Resorts têm como sócio majoritário o governo com 51%, agora qualquer empresa do mundo sonharia em contratar um engenheiro por US$ 20,00 ao mês, e um pedreiro por US$ 12,00 ao mês, será que vale a pena ficar só com 49% do empreendimento? Os turistas pagando US$ 300,00 a diária e a camareira ganhando US$ 12,00 ao mês? Ahhhhhh e como os grandes investidores são bonzinhos, eles ficam com dó dos Cubanos e tiram do bolso deles (dos 49%) e pagam uma ajuda de custo para os Cubanos de uns US$ 100,00 a mais por mês, aí eles trabalham contentes, fazem um serviço de primeira e todos ficam felizes, o Fidel com 51%, o investidor estrangeiro com 49%, o Cubano com US$ 112,00 e o Turista, com as praias maravilhosas, ahhhh e detalhe, sem sindicato!

art disse...

Pois é. Mês passado em Pequim, na praça da paz celestial, fomos seguidos o tempo todo pela polícia nem tão secreta assim dos chineses. Essa raça comunista tem medo de tudo que traga ameaça ao equilíbrio.

Anônimo disse...

Atenção, turma que mora nos EEUU, Lulão, Igor, Célia, etc., etc. Volto a implorar: guardem uma vaguinha na garagem para mim.
Vocês estão achando Cuba ruim? Esperem o que vai acontecer com o Brasil se não aparecer algum macho por aqui!
Desarmaram a população, o que significa? os bandidos é que mandam no país; a turma dos direitos humanos defendem bandidos mais não querem saber das vítimas; o "rolezinho" incentivado por quem está no poder para afrontar a classe que produz; mais de 50 milhões, ou mais de 1/4 da população recebem bolsa família sem nenhuma contraprestação. A quem interessa tudo isso? Imaginem se o time de futebol do Brasil não passar das oitavas, o que pode acontecer? Ah!

Fernando disse...

BRASICU

Ja estou fazendo meu projeto em Lafayete. Um subterrâneo com galerias baseado nos princípios das catacumbas na Itália, composto de adegas, bibliotecas, sala de jogos, salas de som, etc. Projeto com inspiração no Google Things, com assessoria da Apple. Haverá um detector anti-petistas, que serão explodidos num raio de 20 km. Quem quiser contribuir faça um depósito no banco Brasicu, ag.6969 C/c : 666...

Alvaro Risso disse...

Pô Fernando, eu já estava pensando em ir para as suas catacumbas, mas depois q minha foto circulou, não vou mais ser aceito...kkk

Pat disse...

Leon, parabéns pelo seu artigo e observações sobre Cuba.

Definitivamente não me interessa conhecer lugares como Cuba, onde as pessoas não dispõem do básico para conforto pessoal.

Consumismo pode-se viver sem, mas conforto e liberdade jamais!