quinta-feira, dezembro 19, 2013

Publicação de um conto de Diego na revista da UFRJ - ODARA - 1ª edição

arma/diego viana da costa pinto

Ele vê a arma nas mãos do policial, uma espingarda de cor tão escura quanto a sua farda, e se sente calmo. Sabe que nos dias anteriores a polícia não foi gentil com os manifestantes, mas ainda assim se acalma diante de sua presença, talvez não pelo rótulo da força policial, mas pelo uniforme, que lhe traz algum conforto diante de tudo que se passa ao seu redor, uma espécie de calma trazida pela existência de um sistema que o protege. As pessoas começam a chegar de diversas formas, em diferente número, e logo está rodeado por seus compatriotas. O sol ainda dá sinal de que continuará lhes acompanhando por uma hora, no mínimo, mas logo dependerão de uma luz comandada por seus inimigos, se é que essa é a palavra certa. Na concentração, todos estão animados, há uma atmosfera no ar que contagia a todos, como uma corrente elétrica que passa de mão em mão. Começam então a andar, a conversar, a cantar e a gritar. “Liberdade”, “Igualdade”, “Justiça” etc são palavras jogadas ao vento que lhe rodeiam com mais ou menos significado. Os últimos momentos ensolarados são regados de uma alegria contagiante. O pôr-do-sol de um dia, para que venha outro, completamente diferente.
Sente-se pela primeira vez em sua vida parte de algo maior que si mesmo. Não é mais apenas uma pessoa que senta em seu sofá e observa o mundo que passa devagar, sempre do mesmo jeito, na tela da sua televisão. Não é mais alguém por quem a vida perpassa sem que haja marca qualquer de sua breve existência. Aqui ele é parte de algo. Algo tangível e permanente. Aqui ele é alguém, mesmo no meio de tantas pessoas, tantos milhares. Pessoas que ele provavelmente nunca verá novamente, mas que estarão sempre conectadas a ele por um momento brilhante de algumas horas no qual foram um. Nunca esperara poder um dia dizer que fora parte de algo assim. Imagina-se dizendo a seus netos, daqui a dezenas de anos, que participara do movimento que mudara o país, que fora responsável, mesmo que de forma diminuta, por aquilo que os rodeia. Vê seus pequenos olhares admiradores, agradecidos, observando cada movimento de sua boca, que conta a história de um momento único na história do mundo, do seu país. Um momento que, mesmo há décadas de distância deles, ainda existe e é tão presente que parece correr por suas veias. Sorri sozinho, pensando no prospecto de um futuro brilhante que o aguarda, não amanhã, nem depois, mas daqui a muitos anos. É o começo do futuro, o fim de um passado que parecia eterno. É quando tudo se renova. Na euforia do movimento, tudo parece passar rápido demais. Aquelas horas que deveriam durar milênios são afinal não mais do que horas, mas ainda assim não perdem seu significado. Eles andam, lado a lado, e de braços juntos, caminham contra o vento quente que lhes atinge, como que para lhes dar um novo sopro de ar. Não há luta, não há destruição, há apenas a vontade de construir um futuro melhor, de mudar o mundo, o país, a cidade, e quiçá, mudar a si mesmos.
As horas passam e todos se dispersam, vagarosamente. De pouco a pouco, alguns saem, e a multidão logo se torna desconexa. Parece que o dia acabou, mas que algo aconteceu ali. Haverá outros dias. Amanhã, depois, sempre. Há muita correria ao seu redor, ele percebe, e decide ir atrás dessas pessoas. Talvez o dia, afinal, não tenha acabado. Chega a um grupo muito diferente daquele do qual fazia parte. As palavras que sobem ao ar são as mesmas, mas, ao mesmo tempo, soam completamente diferentes. O ar é mais pesado. Não são mais as mesmas pessoas, as mesmas ideias, quiçá não é nem mesmo o mesmo dia. O barulho de vidro quebrado, os gritos enfurecidos, os pedidos de mudança que agora carregam um tom violento, mostram todo um novo lado da luta. A insatisfação tem muitas facetas. Sem nunca ter visto uma guerra, ele pensa que ali, poderia muito bem estar acontecendo uma.
Há uma estática no ar que parece prestes a transformar aqueles milhões de metros cúbicos de oxigênio em puro fogo. Repara então que já queima a rua, os carros e tudo mais em sua volta. A faísca foi lançada. Não há mais volta. Dançam alguns em volta de uma fogueira, numa espécie de danse macabre diante do fim do mundo. Resta então saber se é o fim de todo o mundo. E se for mesmo o começo de um novo, como ele imaginara, se é desse mundo que ele quer fazer parte. Ele está parado no meio de um turbilhão. No olho do furacão, ele se pergunta se todos querem a mesma coisa. Se é possível que um grupo de pessoas queiram a mesma coisa. Se todos têm conceitos diferentes do que é a paz, do que querem para o futuro, como ser um só? Logo, se vê se perguntando se era real aquilo que sentira mais cedo. O confronto começa e ele logo se vê no fogo cruzado. Um espectador que chegou perto demais do espetáculo. A magia, então, logo se dispersa. A polícia está de um lado, os manifestantes de um outro, e a razão muito longe dali. Ele vê pessoas que tentam fugir da confusão. Gente que não quer estar ali. Ele pensa em ir embora, mas não consegue se mover. É tudo demais para ele. Olha para o lado e vê a arma do policial, o que o acalma. É o uniforme, com certeza, que lhe traz essa ideia de ordem e que o deixa relaxado. Eles o protegem afinal. É para isso que eles estão aqui. Ele vai sair dessa. Logo, estará em casa, vendo na TV as imagens do que aconteceu mais cedo, ouvindo de outras pessoas o que vai acontecer no futuro. Ele é novamente tomado por aqueles sentimentos esperançosos. A calma o traz de volta a seus pensamentos mais serenos. O policial está ali, em seu uniforme, e tudo está bem. Ele olha para o policial e sorri despreocupadamente. Tudo está bem. Ele vê a arma e a arma atira. Ele só então vê que foi contra ele.

6 comentários:

Bel B disse...

Muito bom! Este menino vai longe...

art disse...

Gostei.

Anete disse...

Não é a toa que sou uma mãe mais que coruja

Anete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anete disse...

Diego, o que você faz é a realização dos meus ideais. Do que eu sempre gostei e nunca consegui concretizar. Principalmente estudar português, escrever é a coisa que mais admiro.
Tia Noe