domingo, junho 30, 2013

DEUS E A DÚVIDA

      Gru, nosso primitivo ancestral, pensava. Todo ser vivo pensa – como já foi aventado. Gru exercitava o pensamento, o que o levava ao conhecimento da existência da água, do solo, das árvores, de tudo aquilo que ele pudesse ver e até mesmo tocar. Mas Gru não alcançava a idéia de que a água escorria da parte mais alta para a parte mais baixa.

     Gru, curioso, forçava o pensamento, chegando à imaginação: “.. Druzu era pequeno e cresceu; eu também cresci. Por que?” Gru descobriu porque ele, Druzu e muitos outros cresceram: “Cresci, e também todos os outros, porque comi, e também bebi água. O leão come, e bebe água, por isto cresce; e as árvores? Bem, deixa p´ra lá...”
      Gru, assim, começa por estimular ainda mais o pensar, dirigindo-se pelo caminho que o leva à racionalidade e o conduz a iniciar-se na exploração do raciocínio.

     O que se achava na proximidade de Gru era materializado, tocado, não despertando o recurso aprofundado da imaginação e não o conduzia ao afunilamento do pensar que conduz à dúvida. Porém o que se encontrava distante, sobre sua cabeça ou no horizonte longínquo e intocável, intrigava o observador. Aquela imensidão intocável, incompreensível, torturava, angustiava Gru.

     Jean Paul Sartre diz que a vida é angústia. Estaria Sartre conflitado pela dúvida? Há pessoas que convivem e administram a dúvida, enquanto outras não conseguem tal convivência (e administração).

     Para quem não consegue conviver com a dúvida, esta precipita a decisão, a solução. Diante desse dilema Gru decidiu extirpar a dúvida – criou, concebeu Deus, o gestor de tudo que não compreendemos.

     Gru foi o primeiro ser humano a encontrar o alívio para a angústia provocada pela dúvida.

Nilson Barreto - Salvador - Junho 2013

10 comentários:

Anete disse...

Tio Nilson se superando. Perfeito.

art disse...

Antes de mais nada parabéns ao CA pela contratação de mais um articulista. Realmente, Gru e seus descendentes não tinham outra saída a não ser a mencionada. Voltaremos.
Detalhe: nem tudo que existe pensa, mas tudo que pensa existe (tolerantes, vamos incluir até petistas no segundo grupo).

Bel B disse...

Verdade Art, boa aquisição, tomara que o articulista continue a articular...

Anônimo disse...

Nilson, bem vindo a discussao. Entendi que voce explicou como o homem criou Deus para resolver a duvida. Eu penso que Deus e uma muleta que so esconde o que nao sabemos.

Eu tenho paz com a duvida porque compreendo que sou limitado, nunca vou conseguir compreender tudo. Por exemplo, tivemos cientistas geniais na historia humana que nao entendiam ou entendiam errado a natureza por limitacoes da epoca. Lavoisier e Mendeleev foram brilhantes mas nem sonhavam com mecanica quantica.

Lula

Fernando disse...

Deus é igual a bolsa família

Fernando

Alvaro Risso disse...

Perfeita a lógica da estória. Afinal, Deus é apenas uma criação humana, como tantas outras. Para os outros seres viventes (inclusive os petistas) ele não existe.

Bel B disse...

Eu, como GRU, prefiro o alívio para a angústia da dúvida.

art disse...

Gosto muito desse aforismo de Epicuro (320 AC):

"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode é invejoso e impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então a existência dos males ? Por que razão é que não os impede ?"

Esse aforismo foi o responsável pelo sumiço dos livros de Epicuro, e posteriormente os de Lucrécio. Agostinho em 326 DC, assim como outros doutores, desceram do lugar confortável onde a FÉ coloca os crentes, para o terreno pantanoso da Filosofia, enfim, concluiram que o Mal provém do livre arbítrio do homem (com isso veio a inqusição), mas pergunto a Agostinho, "mas por que raios então Deus deu o livre arbítrio ao homem?"

art disse...

Acertando a gola e soltando um pouco a gravata (barata e sóbria, como os fiéis da igreja gostavam, mas era roxa). O Pastor Jurandir me diz "Porque Deus é Bom" (agora olha o pingo de massa de tomate resistente sobre a gravata roxa). "Se é Deus não pode ter qualidade humana Pastor", respondo, também olhando para o pingo de massa de tomate (ele tinha almoçado no domingo na casa de uma fiel, não poderia ter deixado de ir, eles deram R$ 100 para a sua Igreja. O Pastor vasculha a memória pedindo socorro a algum raciocínio emprestado. Se socorre olhando a ponta do sapato (poído e barato). "Deus é fiel", responde, avaliando se deveria comprar outro sapato. "Pô Pastor, fidelidade também é um atributo humano, não cabe em Deus, caraca". "Arthur, você é um cara muito complicado", diz levantando a mão, sinalizando para o buzum que vai para Anchieta. Corre com a Bíblia sob o braço, mas pergunta ao motorista primeiro se ele pode entrar pela frente sem pagar, vai que é um irmão da Igreja, não é?

daniel disse...

Bom texto, tio Nilson, parabéns.
Gru entendeu que era ele mesmo parte de algo maior, bem como o leão, as árvores e a imensidão. Os sinais para compreender a presença de Deus em todas as coisas, estão aí espalhadas pela natureza, bem como dentro de nós mesmos.
Gru, foi o primeiro homem a perceber a existência de Deus.
À medida em que os homens após Gru passaram a formular suas teorias e desenvolveram a riqueza que é a ciência que temos hoje, eles perderam uma característica que Gru tinha, e por isso o tornava superior: o entendimento que o mundo é muito mais do que ele pode alcançar ou entender.
Saudações, Daniel