sexta-feira, março 08, 2013

Três mulheres


Aproveitando o Dia Internacional da Mulher vou falar de três mulheres que já não estão entre nós. Eu as destaco como pessoas que viveram além do seu tempo, enfrentaram a vida colocando seus próprios anseios e desejos a frente de costumes e tradições de sua época. Por isto mesmo, geraram  muitos conflitos e adversidades em suas próprias famílias, sendo assim é compreensível que os filhos das três tenham queixas homéricas delas.

A primeira é D. Nicácia, nascida no início do século XX, quando a mulher ainda dizia amém ao marido, criada dentro da tradicional religião batista, no entanto, sempre fez o que quis. Não se conformou com sua vidinha básica em Três Morros e saiu pelo mundo colocando seus hotéis, pensões e pensionatos. Dezesseis partos, doze filhos criados sem muita preocupação, um ajudando o outro, e ela tranqüila, de bem com a vida, pessoa querida e admirada por todos que a conheciam, tia preferida, avó adorada. Um filho fora do casamento, coisa inimaginável na época e admirável, pois se isto a perturbou, nunca chegou a demonstrar.

A segunda é D.Amelinha, comentada e homenageada várias vezes,  que também a considero além de seu tempo. Casou-se cedo, fazia parte da sociedade conquistense nos anos 60 e embora parecesse submissa ao marido, nunca foi, sempre se virou para ganhar seu próprio dinheiro. Organizada, rígida e linha dura em termos de educação e disciplina com filhos, irmãos e sobrinhos. Muito franca, falava o que pensava. Distante, não permitia brincadeiras, nem intimidade. No entanto, senhora e mãe de três filhos, teve a coragem de vestir uma farda e ir para o colégio estudar, junto com adolescentes, coisa incomum na época. Depois se formou, se especializou, trabalhou e fez muitas viagens.  Correu atrás dos seus sonhos. Mudou, como só os inteligentes sabem fazer. Abriu a cabeça e os horizontes e passou a ser uma pessoa totalmente acessível, amiga e companheira.

A terceira, D.Carmélia, sempre vista como “maluca” (no bom sentido), teve a coragem de enfrentar um desquite (no inicio dos anos 60, ainda não havia divórcio) por sua própria iniciativa, o que tornava a mulher totalmente desprezível. Os motivos não interessam, mas imagino o quanto foi difícil encarar os filhos, a família, os amigos e o enorme preconceito que existia na época, sem psicólogo, sem depressão.  É obvio que  os filhos foram os que mais sofreram as conseqüências. Ela passou alguns anos sendo ignorada por várias pessoas, inclusive da família, consideradas esclarecidas. Ignorou  a tudo e a todos e foi viver a sua própria vida. Diminuiu 10 anos de idade na sua carteira de identidade, já havia feito no espírito. Pulou carnaval. Namorou. Dirigiu táxi. Fez curso de detetive.Viajou. Fofocou um bocado, arrumou algumas brigas.  Enfim, curtiu a vida intensamente. Mais tarde, reconquistou a família e ajudava a todos que tinham problemas a resolver em Salvador, principalmente, coisas chatas e burocráticas. Quando envelheceu, mudou a carteira de identidade novamente e voltou para igreja batista para se redimir.

Três mulheres independentes, livres e resolvidas, jamais submissas.

12 comentários:

Luladasequacao disse...

Bel, concordo plenamente com seu post exceto por uma coisa.

Quem fez isto nao foram 3 mulheres e sim 3 seres humanos. Concordo que ser mulher a 50 anos atras tinha outros problemas que nao existem hoje. Porem, problema todo mundo tem, o que e bonito e como elas (seres humanos) enfrentaram os problemas.

Tambem achei otimo como voce colocou Carmelia na lista. Ela esta na minha lista de herois (seres humanos), ela fez muito para desenvolver as liberdades que temos hoje.

Fernando disse...

Bem, uma é minha mãe, a outra minha irmã e a terceira minha prima. Sempre tive bom relacionamento com as três. Esta consciência de liberdade que elas tiveram, tem muito a ver com o sangue Andrade que corria nas veias e a influência de liberdade extrema dos Barretos . Pará conhecimento de todos, eu sou Andrade Barreto...

A mulher não tem dia, tem a sua existência...

eleusa disse...

Pois é Bel, vc conseguiu retratar fielmente a minha mãe. Ela realmente enfrentou tudo naquela época sem importar com ningém e sem nenhum preconceito. Espero que tenha sido feliz!!!

Fernando disse...

Leu
Todas as Andrade são felizes,Andrade Martins é 100% o problema é quem estar por perto.
Fernando

Anônimo disse...

O que dizer! Mas, ao rever o passado voltam à tona antigos valores morais e espirituais que não nos permitiam enxergar o avanço na filosofia de vida dessas três bravas mulheres - tia Amelinha, tia Nicácia e minha inesquecível mãe - muito bem retratadas nesta crônica.
Por outro lado, nós éramos muito jovens, e bem além do aconchego familiar de pais e parentes mais próximos, vivíamos uma época em que brotavam nossas emoções, sentimentos e sonhos com infinitas incertezas sobre os rumos a seguir. Acredito firmemente, no entanto, que os "os conflitos e adversidades" que trabalhamos no passado nos fez, a todos os descendentes dessas três magnificas mulheres, mais éticos, austeros e principalmente humanos. O tempo passou, e este fascinante registro histórico resgata a bravura, a audácia, a ousadia, o destemor e, com absoluta certeza, beleza da existência que cada uma viveu, além do legado e exemplo para a posteridade.
Obrigado, Bel.
Hamilton

saul barreto disse...

Morei na casa Amelinha em 1979, pra min foi experiência incrível,mulher muito respeitada na sociedade conquistense, ela era simples e bem humorada. Cuidadosa comigo, certa vez me levou pra assistir o filme (Herbie um Fusca em Monte Carlo), comédia infantil, só que o trailer passou cenas do filme do depravado Carlos Imperial (Mulheres, Mulheres), totalmente inadequado para o público presente, consequentemente ela não deixou barato, o cinema MADRIGAL quase fechou as portas. Aliás o programa de Tia Arilma também passou por momentos de aperto. Foi só hum ano de convivência, mas tem muita história. GRANDE FIGURA!

Bete disse...

Bel, voce esqueceu da professora Noeme!
E você Fernando? O que é mesmo estar por perto de uma Andrade Martins?

Bel B disse...

Pois é Bete, Noemi também tinha o sangue Andrade nas veias, dinâmica, independente. E a "economia" dos Martins. Como todos, um bocado de qualidades e defeitos. Mas há algo que não posso me queixar, ela sempre colocou os filhos em primeiro lugar.

Fernando disse...

Bete

Tia Cecília dizia que as Andrades tinham dificuldades de manter seus companheiros, então já casei sabendo, confiei porque o DNA Barreto é mais forte.

Bete disse...

Pois é, também sou Andrade/Martins e fiquei 46 anos com André.

Anônimo disse...

Bel.
Parabéns pala feliz cronica pelo día internacional da mulher focando três que fizeram parte de nossas vidas.
A primeira, tia Nacácia gerou muitos descendentes que carregam sua genética de simplicidade e independência em suas idéias.
A segunda, tia Amelinha. Esta me adotou como seu quarto filho. Na infância privava-nos das bolas de Snooker. Na juventude acolheu-me em seu lar.
Com sua sua agulha de tricô narrava sua historia. Magoei-la não comunicando dia e hora do meu casamento. Tempos depois no silencio de sua voz, pedi-lhe perdão.
A Terceira, Carmelia minha mãe. Guerreira sem armas, porem firme em vontade e ideais proprios. Arrumou as malas e os filhos e rumou pela estrada; Iguai, fazenda, Jequié, Conquista e Salvador. Sempre com a determinação de nos educar. Foi vitoriosa como voce narrou.
A grande lição que tiramos é que quem a conheceu não teve coragem de atirar-lhe nenhuma pedra.
Estas três mulheres serviram para fazermos reflexões e mudarmos conceitos errôneos em nossas vidas.

René.

Fernando disse...

Leu....Raminho......Nei ......vulgarmente chamado de IPÊ....ROBLIS......ARLEA ........um dia alguem vai escrever e lembrar dos irmãos .espero que NÓS como filhos delas sejamos lembrados também como guerreiros,ou melhor, GLADIADORES.
Hoje tenho a certeza que somos irmãos (não na fé)no trabalho,na fofoca,nas brincadeira,nas consulta da vida e nas referencia.
Fernando o filho