quarta-feira, novembro 28, 2012

2012 Ano interessante.

Li alguns posts como o da Mariana que recomenda livros a serem lidos antes de morrer, o de Fernando que recomenda livros para o pós morte, e o post de Lula que leu um best seller (vi uma montanha desse livro aqui na livraria da Travessa que era mais alta do que eu, e vendeu em um dia !). Isso é bom, o hábito de ler parece ter sido impulsionado como uma resposta à era da mediocridade que vivemos.

O ano de 2012 foi curioso em termos de leitura para esse vosso servo que lhes escreve. Aliás, a escrita é a linguagem dos ausentes, sejam eles temporais ou geográficos, e talvez devido a isso tive a sorte de iniciar 2012 com as biografias: Schopenhauer (Safransky), Nietzche (Safransky) e Freud (Peter Gay). Em fevereiro enveredei por novelas, o velho Fiodor (A senhoria), meu querido Borges (Tratado geral da Infâmia) e uma do Merville (o Escrivão) que recomendo muito. Consegui  A metafísica do belo  e O mundo como vontade e representação de Schopenhauer na tradução de Jair Barboza, que gosto e foi bastante elucidativa.
Fui então socorrido pelo meu analista, que me recomendou Seebald (alemão, professor de literatura na Inglaterra): Austerlitz, Aneis de Saturno, Os Emigrantes, e Literatura com Guerra Aérea.

Seebald me devolveu a vontade de escrever, e optei escrever a história de um personagem que sempre me fascinou: Edmond Durand Villegagnon. Precisava estuda-lo e assim fui obrigado a percorrer uma trilha incomum: François Rabelais (Gargantua e Pantagruel os 5 volumes), e Plutarco (Vidas Paralelas de Alexandre e Cesar, Alcebíades e Coriolano, O Banquete dos sete sábios etc), que por sinal não gosta de Epicuro.

Sentado à beira do caminho fui socorrido pelo meu analista novamente : A Virada  de Stephen Greenblatt, apesar de academico (e americano) escreve bem. O assunto é trepidante: a caça ao ultimo exemplar do poema de Lucrécio na Europa no século XV (Ad Rerum Natura) - ou em inglês On the Nature of Things. O herói, Pobbio, persegue o livro até encontra-lo em um monastério alemão. A ironia é que o Pobbio era secretario do Papa e Lucrécio era um atomista e epicuriano, enfim é um livro imperdível.

Temos muita pouca coisa em português sobre Lucrécio, Epicuro e Demócrito, fui obrigado a percorre-los lendo em língua bárbara:  Epicurianism at the origins of Modernity, de Catherine Wilson (Oxford, a garota é professora na Universidade de Aberdeen),  Lucrecius and the Modern World (W.R. Johnson, professor de Literatura Clássica e Comparada pela Universidade de Chicago) e The Epicurus Reader (org. pelo pessoal da Cambridge) Lucretius et al. , "On the Nature of the Universe (Oxford World's Classics) Edgar Wind,  "Pagan Mysteries In The Renaissance" Jill Kraye,  "The Cambridge Companion to Renaissance Humanism (Cambridge Companions to Literature)". Há também Cartas a Meneceu, de Epicuro que achei em português.

Dois autores me chamaram a atenção também (são historiadores): Lucien Febvre - O problema da incredulidade no seculo XVI ( a religião de Rabelais) e Mikail Bakhutin - Cultura Popular no seculo XVI.  O primeiro discute a possibilidade do ateismo em Rabelais, (que era padre!), e o segundo contextualiza Rabelais, Shakespeare e Cervantes na cultura popular medieval e no renacentismo, são dois livros  imperdíveis pra quem curte filologia e história medieval. Esses autores são fundamentais à escrita sobre Durand e Rabelais.

Mas tropecei bastante, não nego: Michel Onfray (filósofo frances atual e penso afinal, um epicuriano), propõe uma história da filosofia contra a corrente (esteve agora na USP), e coloca Platão, Sócrates, Santo Agostinho e os Apologistas em seus devidos lugares...são dele: A política do rebelde e a A potencia de existir. Continuando a escorregar: de Montaigne Os ensaios , e de Peter Haidu Sujeito medieval/moderno, apesar de ser idiota e marxista (desculpem o pleonasmo vicioso), não sabe escrever mas trás uma boa bibliografia.

 Li também uma biografia de Montaigne:  Como viver, de Sarah Bakewell escrita em língua civilizada. Mas como trabalho na frente de uma livraria vieram:

As origens do Totalitarismo,  da Hannah Arendt,  que ajuda a identificar quadrilhas petistas, nazistas ou comunistas (é tudo totalitário e ladrão) que podem ser identificadas pelo tempo e pela filosofia. E do Ludwig Wittsgestein engenheiro aeronautico (austriaco) que estudou filosofia na Inglaterra um livro fantástico de filosofia, que acabei amando: Tratado lógico filosófico * Investigações filosóficas. 

Voltando a Durand Villegagnon: Chermont de Brito O Rei do Brasil. e Viagem ao Brasil do Hans Staden, A fundação Darcy Ribeiro lançou Cartas de Villegagnon para o Conde de Guisse. Essas cartas foram achadas no Canadá e arrematadas em um leilão por um almirante, e que hoje estão aqui no Museu Histórico na praça XV. A fundação as traduziu, o que me ajuda a esclarecer algumas dúvidas que tenho do meu personagem.

Dois livros do velho Sigmund Freud também são arrebatadores: O mal estar da cultura e O futuro de uma ilusão (esse ultimo é sobre as gentes que acreditam em religião, deus, e talismãs etc), que recomendo com default para quem nasce.

Mas o final de outubro reservou um presente. Achado em 1992 atrás de uma parede em uma casa em Barcarrota (Espanha) a edição de 1554 impressa em Medina del Campo, saiu finalmente em edição bilingue Lazarilho de Thormes, de autor anônimo (acho que sei quem é o autor mas ainda preciso ajustar alguns pontos), essa obra teve todas as suas edições queimadas pela inquisição espanhola, e a edição encontrada foi a primeira, isto é, feita sem alterações impostas pelos inquisidores nas edições subsequentes.

No momento escrevo o livro "Durand: Em Busca de um Grande Talvez", uma crônica-novela "Filosofia para Engenheiros" e uma peça: "Letra Queimada" (já que não gosto de teatro pelo menos vou tentar escrever para ele). Foi um ano promissor, espero que 2013 nos traga boas surpresas, inclusive colocando atrás das grades ladrões históricos, ovos da serpente da ditadura.

9 comentários:

Pat disse...

Faz-se necessário informar que foi preciso adquirir mais uma estante para tantos livros em 2012. Penso como estará nossa casa em 2013, pois o ritmo continua frenético na aquisição de literatura.
Por enquanto aguardo ansiosa para ler os escritos que estão em andamento.

Anete disse...

Pois é André, precisamos ler urgente os seus escritos.

Luladasequacao disse...

Arthur,

Fiquei muito impressionado com seu post. Parabens pela intensidade e dedicacao que voce esta dando a isto. Eu ja consegui me dedicar a estudos e leituras antes, mas atualmente estou bem longe disto. Uma contribuicao para esta diferenca e que voce tem um emprego estavel em uma firma grande, eu tenho que levantar todo dia e ir a luta. (Nao estou dizendo que voce nao lute, so que o nivel de preocupacao e diferente.

E interessante que por ter mudado para o Estados Unidos o meu foco e diferente. O seu foco e da escola europeia, principalmente francesa, que da grande importancia a cultura por si. A escola americana e mais pratica, "otimo, para que eu uso isto?". Nao estou dizendo que seja melhor, sao 2 maneiras de escaldar o gato, cada uma tem suas vantagens e desvantagens. O ideal seria estudar os 2 pontos de vista e tirar uma media, mas eu tenho sido relapso na cultura europeia.

Quais sao as vantagens de cada um? O sistema americano e muito pragmatico e resolve problemas de curto prazo de maneira rapida e eficiente. Churchill citou um ditado otimo sobre isto. Ele disse, "Os americanos fazem tudo certo mas anter eles fazem de todas maneiras erradas possiveis.

O outro lado e que os americanos sao fracos em planejamento a longo prazo. Isto e muito visivel em negocios. As firmas americanas fazem coisas totalmente erradas para maximizar o lucro a curto prazo, inclusive nao investem em pesquisa e desenvolvimento como deveriam. Existem varios produtos e firmas com os quais os Estados Unidos lideravam no mundo ha 50 anos atras e hoje estao totalmente atrasados.

Acho que a Europa comete erros a longo prazo, mas por planejar errado. O estados Unidos falha por falta de planejamento.

Infelizmente nao estou preparado para comentar e adicionar ideias sobre o conteudo do seu blog. Por isto vou dar uma de americano e aguardar o livro seu, que prometo ler e comentar. (E bem menos que todos os livros citados, vou acreditar em voce)

Um grande abraco e parabens escreva mais destes, foi um prazer ler.

art disse...

Lula, bingo. Uma das coisas que me chamou mais atenção foi a dedicação das Universidades como Oxford e Cambrigde em estudar Epicuro, Democrito e Lucrecio, e a seriedade com que as universidades americanas trataram do assunto. Uma das linhas de edição de Oxford chama-se "Interfaces" e em sua bibliografia encontramos referencia a Los Alamos, a cientistas envolvidos no estudo das "cordas" etc. É evidente que o atomismo não foi iniciado pelos gregos, isso já está confirmado, mas a comunidade científica, a partir de Boyle, Watt etc, responsáveis pela revolução industrial foi gerada a partir da observação e vigilância medieval em preservar os livros, que as vezes eles mesmos nem entendiam. O que estou enxergando é uma volta à interdisciplinaridade científica no mundo moderno.

PS - 1. leio no ônibus, ou seja cerca de 1,5 horas por dia. Não dirijo mais.

2. A parte dedicada ao meu trabalho científico permanece operando, mas não é interessante como à aquela apresentada.

Bel B disse...

Art,
Quando crescer quero ser igual a você.

art disse...

Pô, Bel, obrigado, mas acho que todos nós, devemos dar a "parada" e fazer o que realmente nós gostamos. Estou nessa. Só vivo do prazer. Mas atenção, o prazer é evitar a dor. Não faço nada que me venha causar dor posteriori. Acusavam os edonistas de tudo, e o símbolo é um porco, que é um bicho que não olha pra cima e assim não vê "a imortalidade da alma" e outras idiotices.

CB disse...

Certa vez li que o conhecimento humano é repassado entre as gerações numa média de 10%, não lembro a fonte e estou procurando novamente esta informação.
Me perguntei uma vez o que seriam estes 10%, que conhecimento é esse consegue sobreviver ao tempo e sobre o que este seria?
"Simples", hoje as pessoas não lêem, não buscam saber de onde nascem as grandes ideias e que motivação elas têem, vejamos por exemplo esse debate recente sobre a nova redistribuição dos "royaties", uma grande massa se mantém discutindo um vértice do assunto e simplesmente não veem o outros lados, o Brasil contra o Rio é covardia, é uma covardia muito óbvia para meu gosto. Como entender realmente o que pode estar por trás da cortina do julgamento do mensalão? é tudo muito obvio quando vemos na tv, tá muito didático não é?
Ninguém questiona a facilidade com que a informação é posta à mesa, as pessoas simplesmente comem e depois discutem se a comida era boa ou não.
Cá estava eu querendo saber o que se servia no almoço do palácio de Buckingham, e descubro uma declaração de um ex-cozinheiro dizendo que a comida da Rainha é pré-histórica.. Oxente minha rainha! com tanto Mc Donalds na Inglaterra, tanto fast-food, dá até para almoçar na França todo fim de semana, por que a senhora se alimenta tão mal?, que coisa de velho!...é o que fala os 10% do conhecimento humano de hoje.

Considerando a tirania do politicamente correto que hoje tem imperado entre nós e comparando com os crescentes casos de câncer, crescimento no consumo irresponsável de álcool, lideres políticos idolatrados como deuses ao lado de países endividados pela facilidade de crédito com bancos a morrer de rir das nossas vidas, acrescidos ao fato que muitas populações democráticas avaliam positivamente as gestões governamentais pelo mundo afora eu venho questionar: Em um circo, o palhaço exerce exatamente que papel?

eleusa disse...

De palhaço!!

CB disse...

"acertou"