sexta-feira, outubro 01, 2010

AS MUITAS NICÁCIAS (Ana Teresa)

Quero deixar registrado e falar de um ganho extra e especial para minha vida que foi a oportunidade de conhecer e conviver por algum tempo com tia Nicácia, um mito, uma pessoa belíssima e simbólica.

Sempre achei, desconfiava mesmo, que ela fosse várias Nicácias. Diversas, de acordo com as adversidades que a vida e o tempo lhe apresentavam. Com um jeito muito especial de ser, com uma capacidade extraordinária de adaptação e flexibilidade, conseguia ser única, pessoal e intransferível para cada um de nós em particular. Nunca se repetia.

O sentido da sua vida era a família. A grande família. Todos os seus parentes eram figuras de destaque. Seus pais, seus filhos, seus primos, suas primas, seus netos, seus sobrinhos, suas queridas irmãs, seu único irmão, seus bisnetos, seu marido, os filhos da sua tia, os filhos da filha de minha irmã, os filhos de meu tio que ainda vive, os netos de minha sobrinha, os sobrinhos dos outros, e os outros netos. Todos chamados pelos seus nomes, identificados. Eram todos componentes de sua banda, faziam parte de sua vida.

Gostava principalmente de reunir a turma. De comemorar as datas e os fatos reais ou imaginários. De festejar a vida. Ela organizava a festa, marcava a data, convidava, insistia, nunca desistia. Todos seriam sempre bem vindos.

A casa sempre cheia e o coração na mão. A mão que sempre alcança, tece, costura, mistura e alimenta. A sua casa foi um símbolo e uma referência para todos nós.

Penso que todos os parentes, aderentes, convidados, não convidados, agregados e penetras da família passaram pela casa de Nicácia, moraram por lá, dormiram, comeram, viveram, e todos sem exceção aprenderam lições de afeto e solidariedade.

Para nós que vínhamos do interior e éramos muitos, senão quase todos, a morada na rua Esperanto, nº 70, Edf. Helena, na Graça, foi um porto seguro. Um abrigo dentro da ainda desconhecida Salvador, um espaço luminoso por onde a vida jorrava por todos os lados, paredes, janelas, panelas e xícaras.

Lembro-me de muita comida e de uma mesa farta, muitas cestas de frutas, muitas abóboras, sacos de quiabos, mangas, bananas, feijoada, carne de charque de diversas modalidades, cozido e muito pirão. Bolos e bolos de aimpim, de milho, confeitados, doces de leite, de banana, de figo. Variedades.

Acolheu a todos sem distinção. Construiu pontes sem preconceitos. Não se deixou limitar por credo religioso, porque Deus estava em toda parte; nem por partido político, votaria em todos se possível fosse. Não reparava na cor, nem nunca separou ricos e pobres. Curtia todos. Com disfarces e sem disfarces.

As portas sempre abertas, queria unir a família. Fazer a conexão. Para tanto, compensava as falhas de todos, dava descontos para outros, amenizava sabiamente os defeitos, agregava valores onde não havia, aumentava as virtudes e as façanhas. Construiu pontes, juntava gente. Emblemática.

Demonstrou pelo seu comportamento ter sido uma filha muito querida pelos seus pais. Lembro-me da primeira vez que a vi, eu ainda menina – achei-a linda! – com vestido linho lilás, minha cor preferida, com saia rodada, apliques de gripis, botões de madre pérola! Estava chique! Mas, a sua sofisticação não era do traje. A sua sofisticação era na alma e eu logo descobri isso!

Quando cheguei a Salvador, a cabeça a mil, querendo ver tudo, aprender rápido, tinha pressa para conhecer pessoas interessantes, os revolucionários, os vermelhos. A situação era difícil e por sorte e contingência do destino fui para na casa de Nicácia. Ela me recebeu mais do que bem, me olhou longamente e disse com sabedoria: Tereza, você aqui pode fazer o que quiser, você é moça e responsável, pode sair, pode ir para casa dos seus amigos, pode ir para as suas reuniões de política, porém pelo menos uma vez na semana você apareça para eu saber se você está viva e para dar notícias. Fiquei simplesmente boquiaberta e extasiada. Nada de igreja, nada de Escola Dominical, nada de ensaio de Conjunto Coral, nem leitura diária da Bíblia, nem conversa com pastor, nem Abraão, nem Isaque, nem Sião. Era a liberdade que chegava total e foi tia Nicácia que me deu o passaporte. Avalisou a minha passagem.

Também quando Filemon foi cassado e preso político, tia Nicácia, entre todos na família, teve coragem, quando imperava o medo, e o acolheu, a ele e a sua mãe, achando ao contrário de todos que ser comunista era quase normal. Abriu as suas portas para nós. Nos acolheu, deu carinho e atenção a tia Dedé na medida exata que ela precisava.

Sei que todos têm as suas histórias igualmente interessantes, mas essas foram decisivas e marcaram nossas vidas. Também não me esqueço de um de seus bolos de aniversário que era uma longa e bela estrada, toda sinalizada. Foi demais! Uma interpretação mais-que-perfeita de seu ser.

Vieram depois as inúmeras viagens, os cultos anuais e concorridos dos aniversários, o retorno à igreja, as festas das crianças na fazenda, as boas feijoadas políticas, os patchworks maravilhosamente detalhados, um lenço amarelo e os pães-de-ló. Uma vida ricamente abençoada.

Penso que a vida quando é bem sucedida é inacabada, porque fica gravada para sempre nas nossas representações, nos nossos vínculos afetivos, e permanecem nos nossos significados e sentidos. Acho que a vida de tia Nicácia segue em frente, nunca se esgota. É como um grande rio desaguando por todos os lados, porque Nicácia realizou a transmissão da vida para nós com fidelidade, alegria e dedicação.


Ana Tereza Sousa Matos

2 comentários:

eleusa disse...

Parabéns Ana Teresa.
Vc conseguiu retratar bem a "nossa guerreira". Quão bom seria se tivéssemos mais Nicácias.
Saudades!!!!

Alessandra disse...

Não tive o privilégio de conhecer D. Nicácia, mas com certeza relatos como esse constroem uma mulher muito querida e especial para tds.