quarta-feira, setembro 08, 2010

ferreira gullar

Ferreira Gullar

Faz muitos anos já que não pertenço a nenhum partido político, muito embora me preocupe todo o tempo com os problemas do país e, na medida do possível, procure contribuir para o entendimento do que ocorre. Em função disso, formulo opiniões sobre os políticos e os partidos, buscando sempre examinar os fatos com objetividade.

Minha história com o PT é indicativa desse esforço por ver as coisas objetivamente. Na época em que se discutia o nascimento desse novo partido, alguns companheiros do Partido Comunista opunham-se drasticamente à sua criação, enquanto eu argumentava a favor, por considerar positivo um novo partido de trabalhadores. Alegava eu que, se nós, comunas, não havíamos conseguido ganhar a adesão da classe operária, devíamos apoiar o novo partido que pretendia fazê-lo e, quem sabe, o conseguiria.

Lembro-me do entusiasmo de Mário Pedrosa por Lula, em quem via o renascer da luta proletária, paixão de sua juventude. Durante a campanha pela Frente Ampla, numa reunião no Teatro Casa Grande, pela primeira vez pude ver e ouvir Lula discursar.

Não gostei muito do tom raivoso do seu discurso e, especialmente, por ter acusado “essa gente de Ipanema” de dar força à ditadura militar, quando os organizadores daquela manifestação ─ como grande parte da intelectualidade que lutava contra o regime militar ─ ou moravam em Ipanema ou frequentavam sua praia e seus bares. Pouco depois, o torneiro mecânico do ABC passou a namorar uma jovem senhora da alta burguesia carioca.

Não foi isso, porém, que me fez mudar de opinião sobre o PT, mas o que veio depois: negar-se a assinar a Constituição de 1988, opor-se ferozmente a todos os governos que se seguiram ao fim da ditadura ─ o de Sarney, o de Collor, o de Itamar, o de FHC. Os poucos petistas que votaram pela eleição de Tancredo foram punidos. Erundina, por ter aceito o convite de Itamar para integrar seu ministério, foi expulsa.

Durante o governo FHC, a coisa se tornou ainda pior: Lula denunciou o Plano Real como uma mera jogada eleitoreira e orientou seu partido para votar contra todas as propostas que introduziam importantes mudanças na vida do país. Os petistas votaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao perderem no Congresso, entraram com uma ação no Supremo a fim de anulá-la. As privatizações foram satanizadas, inclusive a da Telefônica, graças à qual hoje todo cidadão brasileiro possui telefone. E tudo isso em nome de um esquerdismo vazio e ultrapassado, já que programa de governo o PT nunca teve.

Ao chegar à presidência da República, Lula adotou os programas contra os quais batalhara anos a fio. Não obstante, para espanto meu e de muita gente, conquistou enorme popularidade e, agora, ameaça eleger para governar o país uma senhora, até bem pouco desconhecida de todos, que nada realizou ao longo de sua obscura carreira política.

No polo oposto da disputa está José Serra, homem público, de todos conhecido por seu desempenho ao longo das décadas e por capacidade realizadora comprovada. Enquanto ele apresenta ao eleitor uma ampla lista de realizações indiscutivelmente importantes, no plano da educação, da saúde, da ampliação dos direitos do trabalhador e da cidadania, Dilma nada tem a mostrar, uma vez que sua candidatura é tão simplesmente uma invenção do presidente Lula, que a tirou da cartola, como ilusionista de circo que sabe muito bem enganar a plateia.

A possibilidade da eleição dela é bastante preocupante, porque seria a vitória da demagogia e da farsa sobre a competência e a dedicação à coisa pública. Foi Serra quem introduziu no Brasil o medicamento genérico; tornou amplo e efetivo o tratamento das pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, o que lhe valeu o reconhecimento internacional. Suas realizações, como prefeito e governador, são provas de indiscutível competência. E Dilma, o que a habilita a exercer a Presidência da República? Nada, a não ser a palavra de Lula, que, por razões óbvias, não merece crédito.

O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada ─ Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?

2 comentários:

Bel B disse...

Acho que ele foi brando quando diz que o povo nem sempre acerta. Penso que a vontade do povo, principalmente de um povo com um índice de educação baixíssimo é de uma mediocridade enorme. Quais são os programas de televisão que o povo gosta? "O individuo pensa, o povo é levado pelas emoções"

anete disse...

Concordo com Gullar quanto ao nosso presidente e partido, faço das suas palavras as minhas.
Há muito tempo que não voto. Quando ACM era atuante, sempre votei contra ele, mas descobri que nada adiantava, o poder tem um alcance que não conseguimos entender. Assim que chegam lá, independente de partido, fazem a festa.
Quanto mais hoje que não existem mais partidos, e sim conchavos.
Fico realmente com inveja das pessoas que tem idealismo, que realmente acreditam nas pessoas, nos partidos e em outras coisas mais.
Interessante que mesmo não gostando do PT e de Lula, votei nele pela primeira vez oito anos atrás, achei que estávamos precisando de uma mudança. Nada mudou e agora tenho a certeza de que minha consciência fica mais tranqüila quando meu voto é nulo.
SEM OPÇÕES.
O que precisamos é de um corpo técnico no governo que funcione e realize os projetos para o bem da sociedade, independente do governante. Precisamos de pessoas capazes e honestas.
HONESTIDADE
Sempre ouço falar que 4 anos é muito pouco para realizar os projetos de um governo, será que 40 anos são suficientes?
DITADURA
O pior é que não temos opção. Politicagem de baixa qualidade, inclusive dos ditos “intelectuais” e “ambientalistas”. Mas para ganhar a eleição temos que enfim, baixar o nível. E depois que ganhamos temos que enfim, recuperar o dinheiro gasto.
ROUBAR
Mas ainda sou uma pessoa otimista, vivi no tempo da inflação que achávamos que não ia acabar nunca.... e realmente hoje estamos em uma situação privilegiada. Por isto acho que algum dia alguém vai reinventar a política....
ESPERANÇA