Vou repetir aqui um texto de Célia que já foi publicado neste blog:
Tio Flori (Florival da Costa Barreto). Marido de tia Noemi, pai de Isabel, hoje
com mais de 90 anos, tio Flori é aquele que nunca procurou os holofotes. Em que
pese talvez sua timidez, ou provavelmente pouco valor à exposição, tio Flori foi
prefeito de Caatiba, Bahia (1977-1982).
Minhas primeiras lembranças de tio Flori
vêm da infância: um homem calado e sempre com um olhar talvez crítico, mas
conhecedor de cada situação. Naquela época, dizia-se que tio Flori era leitor
costumaz das enciclopédias Barsa, Britânica e Larouse (tudo isto antes de
aparece a Conhecer!). Lembro-me de um pé de figo no quintal da casa cujos frutos
eram cuidadosamente protegidos dos bicos dos pássaros com um saco de algodão
pela arte de tio Flori. Não tenho certeza se estas figueiras produziram bons
figos, mas que estas árvores eram bem tratadas, lá isto eram.
Em abril de 1961 o
episódio da invasão baia dos Porcos nos alertou para eminência de uma terceira
guerra mundial. Confesso que estava apavorada. Não me recordo como estavam o
ânimo de minhas primas e amigas - principalmente Isabel, Bete e Vaneide – mas
tio Flori nos relatou, didaticamente, a situação e que me permitiu dormi como um
anjo sem esperar um ataque americano ou russo no meu pedaço. Obrigada, tio!
Quando eu estava entre os 10 e 13 anos, minha mãe, Amélia, considerou que
devíamos ter um suporte para manejar melhor o nosso idioma. Propôs a tio Flori
que fosse nosso professor. Não me recordo exatamente de meus colegas deste do
curso (Isabel? Duda? Lula? Bete?), mas aprendi que nosso idioma era fundamentado
no latim e no grego e assim poderia entender porque usar s ou z, ç ou ss. No dia
a dia, aprendi, com os exemplos praticados por tio Flori, a analisar os fatos,
sem paixões e preconceitos, sem importar com as opiniões alheias, e, confesso
que isto faz muita diferença em qualquer avaliação que participo
profissionalmente.
Tio Flori hoje tem mais de 90 anos, com alguma dificuldade
para ler e, é claro, já não anda como um adolescente. Mas, ainda tem muito que
ensinar fundamentado em todo seu precioso conhecimento. O que posso comentar, é
meu reconhecimento e agradecimento a uma pessoa que me ajudou a ser mais
independente de pensamento e ação.
Célia Martins Neves (abril 2019)
Vou repetir o meu texto também, de outubro de 2018, antes das eleições:
Meu pai sempre foi de direita. É um democrata e liberal. Nunca foi machista, nem homofóbico. Nunca demonstrou nenhum preconceito, seja social, racial, ou de gênero. Sempre foi defensor da natureza, do saudável e do sustentável, mesmo quando esses valores ainda não eram modismos. Mesmo hoje aos 97 anos, continua assim, aceita todas as modernidades sem nenhum espanto.
Apoiava o governo militar, dizia que o golpe foi necessário para evitar que o país se tornasse comunista. Nessa época, quando todos nós éramos de esquerda, ele nunca tentou nos convencer de nada, nunca pediu para votarmos nos seus candidatos, nem tampouco criticava os nossos candidatos. Ele votava na Arena e a gente no MDB. A única coisa que ele dizia de vez em quando era se gostaríamos de morar num país onde não houvesse liberdade de ir e vir. E quando em ocasiões como Olimpíadas ou outro evento internacional, um atleta russo pedia asilo em outro país, ele comentava, se lá era tão bom, porque será que a pessoa queria sair. E não tínhamos resposta.
Um primo nosso que era atuante na política estudantil de esquerda, mais tarde Deputado Estadual pelo MDB, era nosso Guru Político, a quem a gente consultava a respeito dos candidatos. Ele dizia que meu pai era a única pessoa de direita com quem ele conversava, pois esse tinha argumentos sólidos e era bem fundamentado. E nenhum dos dois tentava modificar o pensamento do outro.
E assim continuou. Ele votava em ACM e equipe, nós no partido adversário. Votou em Collor e eu em Lula. Não se arrependeu. Veio Itamar e depois FHC, que ele considera o melhor presidente que o país já teve.
No governo Dilma quando houve a tal Comissão da Verdade que apurou que durante o governo militar foram mortas 400 e tantas pessoas, ele comentou: Já pensou se fosse um governo comunista, quantos não teriam morrido? Como em Cuba e na União Soviética?...
Apoiou também "o suposto golpe" a Dilma, principalmente pelo que fizeram com a Petrobras.
Apoiou também "o suposto golpe" a Dilma, principalmente pelo que fizeram com a Petrobras.
Quando relembra dos presidentes, ele diz que o único voto que ele se arrepende foi o de Jânio Quadros. E sempre fala: Como deixei de votar no Marechal Lott, que era um candidato muito melhor?... Por ironia, o único arrependimento é não ter votado num militar...
Votou até os 93 anos. Agora torce por Bolsonaro.
Votou até os 93 anos. Agora torce por Bolsonaro.
A Despedida
Meu pai não tinha religião, nem era ateu, costumava se definir como agnóstico, uma pessoa que duvida de tudo, mas também acha que tudo pode ser possível. Contavam as historiadoras da família que ele tinha sido batista e pregador na igreja, porém acredito que isso deve ter sido antes dos filhos nascerem. No entanto, sei que ele lia muito a Bíblia, como cultura, e tinha um vasto conhecimento a esse respeito. Quando ele morava no Centro e as vezes apareciam as Testemunhas de Jeová pregando o evangelho, ele costumava recebê-las e lhes fazia várias perguntas para testá-las. A maioria das vezes elas não sabiam responder e prometiam voltar com explicações na semana seguinte.
Então na sua despedida decidimos que não cabia uma cerimônia religiosa, simplesmente a escolhi um texto da Bíblia e Lílian, esposa de Alan, fez a leitura.
I Coríntios - Capítulo 13
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.
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Agradeço a todos que compareceram à despedida, além de nós filhos: eu, Alan, Darlan e Rinaldo. Genro e nora Fernando e Lílian. Os netos Iuri e Raissa, Iago e a namorada, e Gabriel. Os sobrinhos queridos: Carlinhos, Saul, Anilza, Jussara, Raniere, Ariadne. O irmão, único que ficou, Antonio. Os primos Ivana, Raminho, Anete, Marcinho e Tininha, Nilde e Wagner. Os amigos que a gente sempre pode contar Quinha, Alex, Humberto Junior, Rose, Jefferson.
3 comentários:
Chegou a hora de tio Flori descansar. Foi uma vida, bem vivida. Como disse a Célia, era uma pessoa calada, culta e tenho muitas lembranças dos tempos que morávamos próximos numa praça em Conquista, que já não lembro mais o nome. E nunca esqueci que ele impunha algumas regras para os filhos. Uma que eu detestava, era logo que anoitecia e chegávamos da aula para brincar quando estávamos no auge da brincadeira ele chegava e dizia: vamos escovar os dentes e dormir. Não existia negociação e lá se ia EU prá minha casa com muita raiva por ele ter interrompido nossa brincadeira. Outra coisa que me lembro era que ele não deixava os filhos tomarem qualquer líquido durante as refeições. Lembranças... lembranças.
Quero deixar aqui a minha admiração por Bel, que cuidou dos pais até o fim, com tanto amor, que é raro hoje em dia. Bel, apesar de você ter esse jeitinho tímido, você é uma guerreira, uma gigante. Te admiro muito.
Obrigada Eleusa. Na verdade a gente decide poucas coisas na nossa vida, os acontecimentos nos levam a mudar de rumo a todo momento, a assumir determinadas situações e assim vamos. Sempre tenho em mente "que Deus dá o frio, conforme o cobertor". Eles (Noemi e Flori) não deram muito trabalho. O pior é quando vemos alguém sofrendo, Noemi realmente foi uma guerreira pois sofreu muito, muitas dores. Flori teve uma longa vida bem saudável até os 95 anos. Esses últimos anos, mais difíceis, pela dificuldade de visão e audição, mas felizmente não sentia dores.
Tio Flori era um sábio!
Como diz a lenda do velho sábio chinês que escavou uma montanha para ver o Sol brilhar sobre sua família, plantou sobre esta terra uma árvore que deu bons frutos representados por seus descendentes, notadamente Bel, que tem sido uma verdadeira batalhadora durante toda a sua vida.
Agora, a natureza fará com que contribua para a irrigação e fertilidade do planeta Terra e a expansão cada vez maior deste encantado Universo.
Ah...mas os sábios também se equivocam! Reconheceu tarde demais de que se o Marechal Lott tivesse sido eleito em lugar do “louco varrido” Jânio Quadros, provavelmente, mas sem certezas, os destinos do Brasil seriam totalmente diferentes.
Meu querido Tio Flori me será inesquecível!
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