quarta-feira, novembro 20, 2019

Aventuras em Feira de Santana



Eu diria que essa foi minha melhor história individual, meu maior aprontamento de criança. Uma história que teve risco de morte, mas graças às “minhas habilidades” nada ocorreu. Eu morava de Feira de Santana no inicio dos anos 80 e tinha por volta de 8 anos, meu esporte favorito era me dependurar no fundo dos caminhões que passavam na frente de casa e ir pendurado até o próximo quebra-molas, eu era quase profissional, tanto que um dia um caminhoneiro resolveu passar direto no segundo quebra-molas e fui parar na BR324 sem cair, pulei fora quando ele reduziu a marcha para subir no asfalto, me ralei todo e voltei a pé para casa e não errei o caminho, quase fui para Salvador por acaso. Este dia me fez repensar esse "esporte". Essa quase ida a Salvador e o risco de morrer atropelado me assustaram, precisava mudar. 
Comecei a olhar em volta em busca de novas emoções e vi que o Fusca 67 era igual de um filme dos trapalhões, onde Didi segura com a mão o parachoque, sentei no meio e vi que aquilo era um excelente assento. A possibilidade de ter a mesma emoção do caminhão, mas dessa vez com a segurança de voltar para casa me alegrou, viajar sentado, poder olhar para os lados seria um luxo, era ali que ia sentar. O problema que para o carro andar era preciso de uma motorista, a minha mãe, que não ia concordar nem um pouco com minha brincadeira e que tinha um cinto que ficava na bolsa enrolado para uso eventual, tive que desconsiderar esse risco, pois se eu ia voltar para casa no final qual seria o risco? não haveria risco, seria um passeio de retorno garantido, passei então a imaginar quando seria essa viagem. Por alguns dias monitorei D. Lucinha saindo com o carro, calculando tempos, fazendo ensaios mentais, mas não consegui solucionar como sair de casa sem ser visto. Tinha uma coisa a meu favor, a porta de casa era uma porta de ferro com vários vidros, um deles vivia quebrado por conta da bola que sempre batia lá e dava para eu passar pelo buraco do vidro, então meu local de escape já estava definido. Um belo dia ela estacionou o carro de ré e depois do almoço ela disse que iria ao mercado, eu estava brincando de cabeça baixa e continuei, mas já calculando os passos para escapar pelo buraco da porta. Depois do almoço ela pegou a bolsa e foi saindo, eu continuei brincando, ela fechou a porta de casa e através do vidro vi que ela havia se virado de costas, rapidamente corri por trás da cortina e escapei pelo buraco do vidro, nesse momento ela estava arrodeando o carro para entrar, me abaixei próximo ao pneu traseiro, quando ouvi que a porta se abriu me posicionei no fundo, quando ela sentou no banco sentei junto, ela não viu nada, ligou o carro e lá fomos nós!.
Nos primeiros 100 metros a turma do bar da esquina deu uns gritos, acho que minha mãe pensou que fossem bêbados e acelerou. Eu tentei tirar uma mão do suporte para pedir silêncio, não consegui, passamos em frente a rua de Pat e não há vi, graças a Deus senão eu seria denunciado imediatamente, seguimos em meio alguns buracos da rua Rui Ary Barroso e naquele trecho inicial da rua tinha muito buraco, o carro ia devagar, molhei o pé em algumas poças de lama, vi que o passeio seria além de tudo refrescante, mas vi que não dava para colocar o pé no escapamento porque tava esquentando, fui com o pé pendurado. Fomos seguindo mais à frente e mais gente gritando e Dona Lucinha seguindo sem ver. Eu sacudia de um lado para o outro e quase caí, a sorte que o suporte do fusca segurava meu corpo, deu um certo medo passar pelos buracos, mas graças a Nossa Senhora das pistas chegamos rápido no asfalto, aí o medo mudou de cara. Nos primeiros segundos senti um alivio tremendo por falta de buracos, mas logo em seguida veio um medo enorme por conta da velocidade, ela acelerou e tive que fazer força para me segurar, aguentei firme até ela estabilizar a velocidade, foram segundos deliciosos sem buraco junto com medo de morrer. De repente vejo um carro vindo em minha direção e meu corpo gelou daquele medo dele bater em mim, o coração apertou, mas deu para ver que o carro tava diminuindo a velocidade e tinha uma moça do lado que tava abrindo a boca. O cara tava de boca aberta também e começou a buzinar ambos gritando com a cabeça de fora, o cara voltou para dentro do carro buzinando, eles tentaram ultrapassar, mas não deu, então voltaram a buzinar incessantemente, eram uns desesperados, fiz cara de blasé. Neste momento começou acender uma luz no meu lado esquerdo, estávamos chegando no mercado e a moça do carro ainda gritando e a buzina comendo solta, minha mãe saiu da pista em direção ao mercado e o carro passou do lado, a moça tentou dar o ultimo aviso e nada, dei língua para moça.
A entrada do Paes Mendonça era de barro, uma poeira infernal, começaram novamente pessoas gritando na rua, a rodoviária era do lado e tinha muita gente a pé, mamãe reduziu a velocidade para entrar na área calçada, senti um alivio novamente e comecei a pensar se dava para voltar na mesma posição, mas o povo do mercado foi logo apontando o dedo para o “minino”, então quando o carro parou eu saí do fundo e fiz uma pose de Fred Astaire e gritei – Tcharam!!!! Mamãe tomou aquele susto, me falou alguns palavrões, me mandou esperar no carro enquanto fazia compras, voltei meio desconfiado, quando chegamos em casa tomei uma surra. Eu ia inventar um novo esporte, desisti.

5 comentários:

Igor Matos disse...

Como diz meu amigo Pablo. “Nós somos sobreviventes.” Kinho então nem se fala!

eleusa disse...

Adoro ler suas aventuras. Beijo grande

yes disse...

Obrigado Eleusa e Igor. Igor, Bel me disse que viria na Austrália, ainda tá de pé?

Igor Matos disse...

Kim, fui em agosto. Muito rapidamente, brinco que passei mais tempo no avião do que na Australia.
Fui de Houston para Manchester depois Singapura e finalmente Perth. Cheguei domingo e voltei sexta. Em Perth tudo fecha 5pm no inverno, logo não vi muita coisa. Porém no trabalho o pessoal foi muito simpático. Deu tempo pelo menos de comer uma carne de canguru.
Inicialmente pensei que poderia ir por Sydney e fazer uma parada para lhe ver mas não foi possível. Como estou trabalhando nima empresa australiana sempre tem a chance de voltar. Passando por Sydney lhe aviso. Grande abs.

Cristiano Barreto disse...

Beleza, Perth fica bem longe, quando vier por Sydney me dá um toque, abs

Adeus a meu amigo Zeu

Rio de Contas - caminhada Pico das Almas 1998 - Praga 1998 - Praga Fernando e Zereu no Apipema