sexta-feira, julho 15, 2016

Amelinha lia

Era tempo da expressão “Grande Guerra”. Lá sabia eu o que era guerra, e saber o que era ler estava ainda bem mais distante. Com tanto se falar a palavra guerra, fui descobrindo o que era.
Os Gonçalves lideravam o desfile da marcha pela rua principal ( e única!) de Três Morros, ao som de tambor, caixa e clarinete. A molecada se divertia – a fanfarra era guerra.

Faltava açúcar branco (cristal) nas vendas. Falta de açúcar branco era guerra. O jeito era consumir açúcar preto (mascavo), que às vezes também faltava – falta de açúcar preto era guerra. Aí, era coar café com garapa de cana, mas menino não bebia café – comia café com farinha.
Faltava pão na venda e padaria de Dino – era guerra. E o pior: Faltava bolacha papuda, que menino comprava com trocados de tostões e cruzados. Quando os tostões eram poucos, era comer bolacha papuda no escondido.

Acontecia a guerra que era a falta de gás (querosene). Os candeeiros e fifós não se acendiam nas casas de Três Morros. Tudo escuro em noites sem luar, mas, para resolver, valia-se da lamparina alimentada com óleo de mamona, que se produzia e adquiria por ali mesmo.
Amelinha tinha um pequeno candeeiro a gás. Eu sempre acordava pelo meio da noite e, de olhos meio abertos, via a claridade sob o telhado na parte correspondente ao quarto onde dormia Amelinha. Amelinha lendo, certamente; e achava eu que isso era coisa de gente grande.

Eu e companheiros, quando pegávamos uma revista, jornal ou livro, era para virar páginas, vendo figuras - se coloridas as figuras, era uma beleza só.
E Amelinha lia, até altas horas da noite. No dia a dia corria o zunzum: Zezinho (pai) não gostava: Se era porque a luz acesa gastava gás, ou a lamparina consumia óleo de mamona; ou, ainda, porque ela lia, e o que lia. Eu nem aí. Mas chamava-me atenção: Amelinha lia.

Amelinha aprendia, ensinava e induzia outros à leitura. Uma virtude que ela demonstrava, entre outras – com aulas até mesmo indiretas (quando se dizia: Amelinha faz isso, faz assim...) em várias áreas, como na culinária, na costura, no tricô e, a meu ver, uma aula importantíssima: LER.

Quando ingressei na escola (aos 8 anos de idade), despertou-me a curiosidade por ler e, lembrando-me de Amelinha, achava que seria bom saber ler. Para mim a grande aula de Amelinha: LER.
Muito obrigado, irmã!... Saudade...


Nilson Andrade Barreto


(Texto de Nilson para a nova edição do livro de Amélia)

6 comentários:

Norma Viana disse...

Lindo texto você lembra o tempo da nossa infância emocionante.Valeu.

art disse...

Muito bacana. A visualização da guerra sobre o dia a dia está impecável.

eleusa disse...

Êta mulher guerreira!

Marcelo/Leri disse...

D. Amelinha foi uma das maiores do seu tempo. Eu e minha mãe sempre lembramos dela com muita admiração e saudade daquela época.

Noélia Barreto Matos disse...

Boas lembranças Nilson,saudades!

Noélia Barreto Matos disse...

Boas lembranças Nilson,saudades!