domingo, março 04, 2012

O Paradoxo Brasileiro

Este texto abaixo veio de Igor via Isabel e Fernando, achei que valia a pena publicar. Tambem tenho algo adicionar.

Eu tive experiencia identica quando vivi em Pittsbugh. Eu so discordo do texto no final onde ele diz ter 5 seculos que estamos apredendendo a nao respeitar a instituicao. Isto vem do portugues, que se comporta da mesma maneira que o brasileiro, mas tem uma causa.

Quando Portugal foi liberado dos mouros em 1180, a Espanha enviou um comandante com tropas para retomar a ultima parte da peninsula iberica. Este comandante apos liberar Portugal concluiu que nao precisava da Espanha e criou um pais autonomo. Como os senhores feudais locais ja nao existiam, o novo Rei de Portugal decidiu ser dono de tudo e doava os territorios e castelos a quem quisesse sem uso vitalicio ou por heranca eram "emprestados" pelo rei.

Deste episodio vieram tres fatores importantissimos: Primeiro de desrespeito as intituicoes, pois o proprio Rei de Portugal desrespeitou a Espanha que pagou pela invasao. Em segundo lugar, como toda propriedade era do rei, criou-se uma cultura de bajulacao do rei e esperar presentes. Em terceiro lugar, como nao havia continuidade garantida da posse de um castelo e propriedades todos pensam a curto prazo, por que investir a longo prazo se eu posso perder a propriedade?

E interessante o contraste com a historia da Inglaterra na idade media onde os senhores feudais locais eram fortes a ponto de lutar contra o Rei ou mesmo mudar o rei. Os senhores feudais eram "donos" do pais ao contrario de Portugal.

O PARADOXO BRASILEIRO

Nos quinze anos que morei em Chicago conheci muitos brasileiros. Vários
deles eram também estudantes de pós-graduação e também moravam na mesma
quadra que eu, em prédios de autoria de Mies van der Rohe. Fiz boas
amizades que cultivo até hoje.

Havia uma característica neste grupo que me surpreendia muito e que demorei
anos para entender. Essas eram pessoas bem educadas que sempre me trataram
muito bem e que eram atenciosos para com os outros. Eram bons anfitriões e
generosos em suas recepções aos amigos. Se comportavam com cordialidade e
cooperação quando iam à minha casa (cooperação em terra que não tem
empregada doméstica é uma contribuição importante!). Quando íamos a
restaurantes, essas pessoas faziam questão de pagar a sua parte da conta -
e às vezes queriam até pagar a conta inteira.

Em outras situações, porém, essas pessoas tinham um comportamento que me
era incompreensível. Um exemplo claro foi um dia que saímos - em grupo de
uns dez - a passear pelo Loop (o centro da cidade). Assim que iniciamos a
caminhada alguém que estava lá havia alguns meses decidiu comprar o jornal
(o exemplar de domingo do Chicago Tribune é uma massaroca de muitos
cadernos) e perguntou se mais alguém "queria" jornal. Explicou então aos
recém-chegados que nos Estados Unidos ao se colocar a quantia certa para o
preço do dia, o armário inteiro se abre e o cliente "podia" pegar "quantos
jornais quisesse". Para minha surpresa acharam a ideia ótima e tiraram uns
quatro jornais. Não se passaram dez minutos e dois dos pesados jornais
"extras" foram jogados no lixo (exatamente na esquina circular da Carson
Pirie Scott, o excelente edifício de Louis Sullivan, ricamente ornada com
desenhos em painéis de ferro fundido).

Durante muito tempo refleti sobre o que gerava esse "Paradoxo Brasileiro".
O que faria com que pessoas com conduta honesta perante os
outros constantemente não pensassem duas vezes em fazer coisas como roubar
jornais, mesmo quando nem estavam com vontade (muito menos necessidade) de
ler.

Depois de alguns anos cheguei a uma conclusão que comprovo até hoje. O
brasileiro típico encara a honestidade como um comportamento contextual.
Dentre outros contextos, há a honestidade pessoal e a honestidade
institucional. As pessoas "do bem" cultivam a honestidade pessoal desde
criancinha. Muitos evitam até vender um carro usado a um vizinho para não
correr o risco do vizinho achar que foi ludibriado pela venda. Quando saem
em grupos, fazem questão de pagar a sua parte da conta e muitas vezes
insistem em pagar a conta de todos. São corretos, gentis e generosos com os
seus amigos e familiares, e com o próximo que está próximo.

Quando se trata de interagir com uma instituição, porém, o parâmetro é
outro: usa-se o parâmetro da honestidade institucional, onde muitos desvios
são permitidos. Se a instituição é pública, então, o parâmetro é ainda mais
distante: aí se aplica a Lei de Gérson, e a meta passa ser levar vantagem.

É importante lembrar que até meados da década de 70 não existia, no
português coloquial brasileiro, a expressão "dinheiro do contribuinte":
tínhamos "imposto" ou, mais frequentemente, "dinheiro do governo". (e eu me
lembro disso muito bem pela frustração de não conseguir traduzir "taxpayers
money" na época que ainda amadurecia o aprendizado do inglês). Há toda uma
tendência para que o brasileiro não respeite as instituições.

E porque os brasileiros não respeita as instituições??? A reposta hoje me
parece bastante clara: o brasileiro não costuma respeitar as instituições
porque as instituições não costumam respeitar o brasileiro. Ao longo desses
cinco séculos construiu-se um país onde é mais importante se relacionar bem
com os gestores das instituições públicas do que com a própria
instituição (estou sendo generoso evitando utilizar a expressão "donos das
instituições públicas").

Texto de Raul Nobre Martins

Um comentário:

Bel B disse...

Só para esclarecer Raul, autor do texto, é arquiteto. Foi meu colega de Faculdade.